O sentido da Páscoa

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

 

A Semana Santa, também denominada “Semana Maior”, pela sua especial importância, continua a ser um tempo privilegiado de oração e reflexão, motivado pela celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus.  Ela inicia-se com o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor e se conclui com a Páscoa. Na noite do Sábado Santo ocorre a celebração mais importante do ano litúrgico, a solene Vigília Pascal, proclamando a ressurreição de Jesus, com grande louvor e alegria, entoando “aleluia”. A festa da Páscoa, já presente no Antigo Testamento, passou a ser celebrada pelos cristãos como dia da Ressurreição de Jesus, “passagem” da morte para a vida.

Coelhos e ovos, símbolos muito difundidos neste período, pretendiam expressar justamente a vida e a fertilidade. Os ovos são símbolos da vida que nasce; os coelhos, conhecidos pela fertilidade, também estão associados à vida abundante.  Contudo, hoje torna-se difícil atribuir-lhes sentido pascal, pois têm sido reduzidos a artigos de consumo. Nada se compara a dois grandes genuínos símbolos pascais: o cordeiro e o círio pascal. Ambos representam o próprio Cristo morto e ressuscitado, embora o cordeiro não receba a mesma visibilidade do círio, que conta com um rito próprio na Vigília Pascal e permanece nas igrejas católicas durante todo o tempo da Páscoa.

O Círio é a grande vela acesa na Vigília Pascal, no qual se encontram gravadas as letras A e Z ou as suas correspondentes Alfa e Ômega, no alfabeto grego, lembrando que Cristo é o princípio e o fim de tudo. Nele estão gravados também os algarismos representando o ano em que se celebra a Páscoa, expressando a sua atualidade, e uma grande cruz, na qual são inseridos cinco cravos, recordando as marcas da Paixão. O Cristo glorioso é o mesmo Jesus que doa sua vida na cruz, conforme o célebre episódio do encontro de Tomé com Jesus.

O Cordeiro é um símbolo pascal de origem bíblica, presente na celebração da Páscoa judaica. Jesus é o novo cordeiro pascal; sua morte coincide com o sacrifício dos cordeiros no templo de Jerusalém, segundo a narrativa joanina da Paixão. Na iconografia cristã, Jesus Cristo é representado por um cordeiro, como nas imagens de São João Batista, que apresentou Jesus aos primeiros discípulos, como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).

A Semana Maior, com a Páscoa, traz uma oportunidade especial de proximidade fraterna, de reconciliação e de paz. Por isso, é fundamental estar juntos, em família e na comunidade. As celebrações litúrgicas são fonte de vida nova, devendo se prolongar na vida cotidiana através do amor fraterno, que nos permite reconhecer no próximo um irmão ou irmã. Quem celebra a Páscoa crê na vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, do perdão sobre a vingança, da paz sobre a violência. A paz do Ressuscitado seja acolhida e compartilhada nesta Páscoa!

 *Artigo publicado no jornal Correio, em 25 de março de 2024.