O sentido da vida

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

 

Vivemos numa época marcada por transformações rápidas e profundas na sociedade, especialmente, no âmbito da cultura.  Basta ter presente, dentre outros aspectos, o matrimônio, a família, a sexualidade, o campo científico e tecnológico, as práticas religiosas e as transformações políticas. As rápidas mudanças e o acentuado pluralismo na sociedade podem levar as pessoas à perda de referências fundamentais para dar sentido, motivação e orientação para a própria vida. A angústia e a desesperança, o vazio e a desorientação, a desumanização dos relacionamentos e a banalização da vida refletem a falta de sentido da vida ou a sua perda.

Sentido é razão de ser, é fundamento sobre o qual se constrói lenta e pacientemente o edifício da vida.  Sentido é mística, motivação maior que anima os passos no caminho, por vezes, árduo e longo. Sentido é orientação, é bússola a nortear, que possui uma dimensão ética enquanto fonte de critérios para o agir. Não se pode viver sem sentido. A necessidade e a busca incessante de sentido para a vida pessoal, para a história e o mundo, estão enraizadas na natureza da pessoa humana. A questão não se reduz a um círculo de pensadores, nem a um segmento da sociedade.

A busca de sentido torna-se ainda mais difícil numa época marcada pela emergência da subjetividade, fenômeno nem sempre considerado e bem compreendido, pela sua complexidade e ambivalência. De uma parte, pode significar a afirmação justa do valor da pessoa, de seus anseios e necessidades, no mundo contemporâneo. De outra, pode desembocar no individualismo, no fechamento sobre si e no relativismo.  Por isso, o sentido para a vida não pode ser considerado como algo que diz respeito apenas à própria pessoa. A perspectiva da mesmidade, onde cada um enxerga apenas a si próprio, não pode ser o horizonte onde se descortina o sentido, mas sim a perspectiva de alteridade, com a pessoa perante o outro.

Contudo, a busca de sentido não se reduz à necessidade de atribuir sentidos parciais e passageiros às atividades, tarefas ou projetos que vão se desenvolvendo ao longo da vida. É certo que as pessoas precisam dar sentidos parciais ou provisórios, atribuindo significado a cada tarefa que realizam. Mas, isso não basta; sendo eles imediatos ou provisórios, pode-se cair no vazio à medida que passam ou não acontecem. O sentido dos sentidos, o fundamento último, é transcendente, ultrapassando os sentidos parciais e provisórios, sustentando a pessoa quando eles não são alcançados ou depois de alcançá-los. Aqui se coloca a questão de Deus, o sentido pleno que permanece e que ultrapassa os limites da racionalidade filosófica ou científica, radicando-se no âmbito da fé.  A referência a Deus e à vivência da fé, pessoalmente e em comunidade, são fundamentais na busca, compreensão e experiência do sentido da vida, consistindo-se em fonte de esperança e de paz.

*Artigo publicado no jornal Correio no dia 26 de setembro de 2022.