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Os Salmos e a oração do cristão

Ir. Tomás de Aquino Santos Nonato, Obl. OSB

A oração é uma realidade fortemente arraigada na autocompreensão do homem e da mulher de fé. Por certo, cada um de nós guarda com carinho aquela primeira oração aprendida na mais tenra infância, uma fórmula simples que repetiu incontáveis vezes e à qual recorreu mesmo já adulto, às vezes inconscientemente, em momentos de maior necessidade. Essa oração, aprendida quase sempre com a mãe, torna-se uma expressão quase natural de sua própria compreensão de oração. Essa experiência orante marca-nos fortemente, mas o amadurecimento da vida de oração impõe-nos superar essa primeira experiência para, seguindo o conselho do Senhor, lançar as redes em águas mais profundas (Cf. Lc 5,4).

Via de regra, a nossa primeira experiência de oração é com uma fórmula pré-definida que, embora se tenha ligado afetiva e efetivamente a nós de modo quase visceral, não reflete a dinamicidade de uma oração encarnada que vocaliza com precisão os diversos estados de alma que nos movem à oração. Quando esta realidade é cotejada com o conselho de São Paulo de orar sem cessar (1Ts 5,17), essa ligação da ideia de oração com a recitação de fórmulas prontas se torna ainda mais problemática. Como orar sem cessar se orar é sinônimo de recitar fórmulas?

Embora a recitação de fórmulas de oração, muitas vezes veneráveis, possa ser de grande utilidade para a vida espiritual do cristão, o caminho para uma verdadeira vida de oração está além da simples recitação de fórmulas. Ele reside na intimidade com Deus, em falar-lhe como um amigo fala a outro amigo (Ex 33,11). A experiência de Moisés de falar a Deus face a face, que tomamos muitas vezes apenas na dimensão teofânica, quer falar mais da intimidade com Deus do que dessa manifestação inefável da divindade: o fundamental não é a experiência dos sentidos, mas a experiência da intimidade no coração, em tornar nosso o movimento do discípulo amado, que permanece sem nome para que cada um de nós possa ocupar misticamente esse lugar, reclinando-nos sobre o peito de Jesus para lhe falar (Jo 13,25). Orar, então, é por-se face a face diante do Senhor (Ex 33,11), é reclinar-se sobre seu peito (Jo 13,25) e deixar coração falar a coração.

A Sagrada Escritura nos oferece uma guia segura para essa experiência mais livre de oração, pois “toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm 3,16-17). Contudo, no conjunto dos textos sagrados os salmos ocupam o lugar especial como escola de oração: precisamos aprender a rezar com o Saltério, isto é, usar o Saltério para rezar e fazer do Saltério um modelo para nossa oração pessoal.

Incluídos na Sagrada Liturgia de modo supereminente, o Saltério se oferece para nós como uma oração que podemos assumir como nossa e como uma escola de oração, um modelo a partir do qual podemos aprender a rezar como o Senhor quer que rezemos. Por isso, um primeiro movimento para melhorarmos nossa vida de oração é um mergulho nos salmos. Ler o Saltério, rezar com ele, fazer nossas as palavras do salmista e, com o tempo, aprender com o salmista a falar com o Senhor com a intimidade de amigos. Rezando com os salmos, entramos em uma longa tradição de oração que abarca os santos e nos leva até a prática de Jesus e dos apóstolos.

A experiência da oração salmódica, contudo, não é sem problemas. Salmodiar pode se degenerar em uma repetição estéril dos textos que já não nos dizem nada: o salmo pode virar uma fórmula de oração para nós. A desconexão do salmo com nosso estado de espírito atual pode também tornar o salmodiar uma experiência árida e, às vezes, intolerável. A incompreensão do texto bíblico também pode se revelar uma dificuldade de difícil transposição, daí porque é muito importante uma formação bíblica mínima para que se possa penetrar nas riquezas do texto sagrado. Contudo, uma vez que tenhamos aprendido como assumir os salmos como nossa experiência de oração, abre-se uma nova realidade a nossos olhos e já podemos dizer que é o “Espírito que intercede por nós” (Rm 8,26).

Como Palavra de Deus, o salmo é a palavra que Deus coloca em nossos lábios para lhe respondermos em nossas necessidades. Rezando com os salmos, falamos a Deus com as palavras que o próprio Deus inspirou ao hagiógrafo. Neste ponto, a palavra do salmista se torna também um parâmetro para a nossa oração: o modo como o salmista estrutura sua oração nos oferta um modelo seguro para nossa própria.

Qual é, então, esse parâmetro de oração estabelecido pelos salmos? Qual é a lição que o salmista nos dá?

Sem pretender esgotar um tema tão vasto e profundo, quero elencar aqui três pontos que considero fundamentais. Em primeiro plano, os salmos nos ensinam que a verdadeira oração dialoga com a verdade de nossa alma e não com uma piedade fingida: rezar é ter uma conversa franca com o Senhor, falando-lhe sobre aquilo que nos vai no coração. Contemplar a franqueza às vezes desconcertante com que o salmista interpela a Deus em alguns salmos nos ajudará a desenvolver uma oração mais encarnada, a perceber que nosso Deus sabe de que barro somos feitos. Segundo, todas as circunstâncias da vida são ocasião de oração. De todas as realidades, as mais dramáticas e as mais jubilosas, pode-se tirar material para a oração. Os salmos cobrem todas as realidades da vida porque não há contexto que exclua Deus: onde quer que esteja o homem, aí estará Deus com ele. Santo Irineu de Lião nos ensinava no séc. II que “a glória de Deus é o homem vivo” para nos lembrar que o nosso Deus caminha conosco e quer partilhar a vida conosco. Pela oração, fazemos de Deus nosso companheiro de caminho. Terceiro, os salmos nos mostram que nosso Deus é próximo, interessa-se por tudo o que nos diz respeito. Toca-lhe tudo o que vivemos. Sagrado e profano não fazem mais sentido porque a vida toda do homem está envolvida no mistério de Deus. Uma oração assim construída será um verdadeiro abrigar-se no Senhor (Sl 7,2), uma segurança no caminho (Sl 22 [23],4), um verdadeiro elevar-se ao Senhor (Sl 24 [25],2). O próprio Senhor nos ensinou como orar nessa escola de oração (Cf. Mt 6,7-15; Lc 11,1-4).

Que o Senhor nos infunda um coração orante para que possamos estar sempre em sua presença. Que o nome do Senhor esteja sempre em nossos lábios como consolo na angústia e júbilo no tempo de alegria; que a Palavra do Senhor seja em todo tempo” lâmpada para nossos pés e luz para o nossos caminhos” (Cf. Sl 118 [119], 105). Amém.

 

NOTAS:

  1. Oblato Secular Beneditino da Arquiabadia de São Sebastião da Bahia, Congregação Beneditina do Brasil.
  2. Os Salmos são parte fundamental da oração diária da Igreja, pois estão contidos na Liturgia da Palavra da Eucaristia e são a base da Liturgia das Horas que consagra o tempo pela oração.
  3. Não obstante haja muitos cursos de introdução à Sagrada Escritura que se pode fazer em diversas paróquias e em sites católicos muito bem recomendados, a leitura atenta das notas e introduções aos livros da Bíblia já fornece uma ajuda preciosa para a compreensão do texto sagrado. Para o Saltério, as notas da Bíblia do Peregrino são especialmente valiosas.

 

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