Poliedro, a figura modelo de Francisco

Pe. Sergio Esteban González Martínez, CSS

O Papa Francisco, desde o início do seu pontificado, demostrou a importância de ser uma Igreja em saída, capaz de deslocar-se em busca daqueles que se encontram nas periferias geográficas e existenciais. O sonho de uma Igreja missionária capaz de construir pontes e não muros, se pode refletir através de uma figura apresentada pelo Sumo Pontífice: o poliedro. Este modelo busca unir todas as partes sem perder o particular e original de cada membro. Ele busca a inclusão social e a proteção principalmente dos mais vulneráveis e frágeis da sociedade. Esta figura nos orienta para saber que ser Igreja em saída significa ir em busca de todas as partes, a fim de uni-las no poliedro, arquétipo de construção social.

O modelo se encontra inserido no quarto princípio proposto pela Evangelii Gaudium, e é uma das condições para a construção de uma sociedade pacífica, fraterna e justa. Percorre as diferentes realidades da ação pastoral, política, social e enfatiza que é a união dos povos, que, na ordem universal, conservam a sua própria peculiaridade; é a totalidade das pessoas em uma sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos (EG, 236). Esta figura se forma por partes que devem ser cuidadas com especial atenção: pobres, refugiados, indígenas, idosos, migrantes, pessoas que sofrem diferentes formas de tráfico, mulheres, nascituros e até a própria criação. O modelo adquire a sua forma enquanto acrescenta no diálogo: o Estado, a sociedade – com as suas culturas e as ciências, e os crentes não católicos.

O poliedro também se faz presente na Exortação Apostólica Querida Amazônia. Com o nome poliedro amazônico, manifesta a diversidade de povos e nações que a conformam. As diferentes línguas e culturas podem tornar a sociedade rica em conhecimentos e fortes em diálogo social. A figura modelo demostra uma Amazônia pluriforme e plurirreligiosa que precisa encontrar espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum e a promoção dos mais pobres (QA, 106). Espaços donde os povos nativos consigam desenvolver-se, para assim, contribuir pela participação na sociedade, valorização da identidade, conhecimento ancestral e riqueza multicultural.

A figura do poliedro percorre não só a vida dos indígenas da Amazônia – manifestada na vida e cuidado do relacionamento comunitário em função do bem comum e na união da sabedoria dos ancestrais – senão, também, na própria natureza que abraça por meio das águas e forma uma coluna vertebral que harmoniza e une: “O rio não nos separa; mas une-nos, ajudando-nos a conviver entre diferentes culturas e línguas” (QA, 45).

A sociedade fraterna e a amizade social proposta pela Carta Encíclica Fratelli Tutti, também destaca a figura do poliedro como construtor de paz, justiça e fraternidade. Ressaltando um elemento essencial que percorre as partes e forma a figura modelo do Papa, encontra-se a caridade. Esta palavra é o motor da figura que leva amar e optar pelo bem comum. Ela é o coração palpitante de uma sociedade sã com espírito de abertura que torna partícipe todas as partes, sem medo a relacionar-se. Esta caridade que busca inserir-se no âmbito social e político, motiva a superar os conflitos que podem surgir no processo de integração das partes.

O poliedro nos torna irmãos e membros de uma casa comum. Reconhecendo a beleza de cada membro e a interligação das partes. A figura expressa a importância de traçar laços que fomentem a ideia de: ninguém se salva sozinho. Não basta conhecer o valor da unidade, é preciso escolhê-la constantemente na vida pessoal e no relacionamento social. Construir uma sociedade na qual as diferenças convivam integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças (FT, 215) é a finalidade do poliedro. Esta figura não é uma utopia, senão, uma realidade que pode ser edificada a longo prazo e com o esforço de todas as partes. Uma nova cultura é possível com planos que sejam duradouros focando-se sempre no bem comum.

Referência Bibliográfica

PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Fratelli Tutti sobre a fraternidade e a amizade social. São Paulo: Paulinas, 2020.

______. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus/Loyola, 2013.

______. Exortação Apostólica Pós-sinodal Querida Amazônia ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade. São Paulo: Paulus, 2020.

Foto de capa: Vatican Media

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