Prezada Irmã Dulce – melhor: Prezada Santa Dulce dos Pobres!

Salvador – Arena Fonte Nova, 20 de outubro de 2019.

Missa de Santa Dulce dos Pobres

Homilia de Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Textos bíblicos da Missa do 29º Domingo do Tempo Comum – Ano C:

Ex 17,8-13; Sl 120(121); 2Tm 3,14-4,2; Lc 18,1-8

 

Prezada Irmã Dulce – melhor: Prezada Santa Dulce dos Pobres!

Hoje Salvador está em festa; a Bahia está em festa; o Brasil todo se alegra com o reconhecimento de sua santidade, ocorrida no domingo passado, na Praça São Pedro, no Vaticano. Quem esteve lá – foram muitos; uma multidão de brasileiros -, fez uma experiência única, uma experiência emocionante, daquelas que só a fé nos possibilita viver. Como foi bom ouvir a declaração do Papa Francisco: “Para a glória da Santíssima Trindade, para a exaltação da fé católica e o incremento da fé cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e nossa (…) declaramos e definimos” Santa a Bem-aventurada Dulce Lopes Pontes, e a inscrevemos “no catálogo dos Santos, estabelecendo que em toda a Igreja” ela seja devotamente honrada entre os Santos.  Hoje, pois, só poderíamos mesmo estar muito alegres. E quem é a causa de toda essa alegria e emoção? É a senhora, Santa Dulce dos Pobres – a senhora, que agora é irmã não apenas dos soteropolitanos e baianos, mas, a partir do histórico dia 13 de outubro de 2019, é, também, uma irmã universal. É por isso que estamos aqui, na Arena Fonte Nova. Quando a senhora poderia ter imaginado que um dia, numa tarde de domingo, uma multidão se reuniria por sua causa, num estádio de futebol? Futebol, aliás, que a senhora tanto apreciou em seus tempos de adolescente – que o digam o Ypiranga e o jogador Popó!

Permita-me que eu me corrija: não é bem verdade que estamos aqui por sua causa. Há uma causa maior que nos traz aqui: a Santíssima Trindade, fonte de toda santidade, fonte de sua santidade. Aqui estamos para louvar e agradecer ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo pelo dom que nos concedeu, com a canonização que o Brasil acompanhou. Sua fidelidade a Jesus, sua confiança na Providência divina e seu amor aos pobres e enfermos, aos menores abandonados e às crianças desprotegidas a tornaram conhecida e amada ainda em vida. Estamos aqui, pois, por causa do efeito da ação do Espírito Santo em seu coração; estamos aqui por que a senhora colaborou com a graça divina e se tornou uma discípula de Jesus Cristo.

Imagino sua timidez, no tempo em que morava em Salvador, quando ouvia alguém chamá-la de “O Anjo Bom da Bahia”. Mas a senhora foi isto mesmo: um anjo que passou pelas ruas desta cidade, que acolheu doentes e abandonados e que ajudou muitos a descobrir o sentido da palavra “dignidade”.

No domingo em que a senhora foi declarada Bem-aventurada – 22 de maio de 2011 -, em uma celebração no Parque de Exposições de Salvador, uma mensagem chegava para nós lá do Vaticano, da parte do Papa Bento XVI: “Desejo associar-me à alegria dos pastores e fiéis congregados em São Salvador da Bahia para a beatificação da Irmã Dulce Lopes Pontes, que deixou atrás de si um prodigioso rastro de caridade a serviço dos últimos, levando o Brasil inteiro a ver nela a mãe dos desamparados”. “Mãe dos desamparados!” Que belo título! No domingo passado, o Papa Francisco, referindo-se à senhora e às outras duas consagradas, lembrou que “a vida religiosa é um caminho de amor, nas periferias existenciais do mundo”. O povo brasileiro reconhece isso e a chama de “O Anjo Bom do Brasil”.

A Palavra de Deus proclamada neste domingo – 29º do Tempo Comum, do Ano C -, começou nos apresentando a figura de Moisés. Com as mãos levantadas, ele sustentava e garantia a vitória contra os inimigos. Aprendemos com seu testemunho, Santa Dulce, que não há vitórias só com nossos esforços pessoais. Precisamos da força de Deus, e essa força obtemos com a oração. Foi rezando que a senhora conseguiu superar seus limites pessoais e, particularmente, sua saúde precária. Foi com oração que a senhora não desanimou, mesmo quando portas se fechavam e o céu se escurecia com densas nuvens. A senhora nos lembrou isto: “Vou frequentemente à Igreja pedir força a Deus; costumo visitar o Santíssimo Sacramento em nossa capelinha do hospital. O segredo é a oração. Se a gente não faz da vida uma oração contínua, é difícil aguentar as dificuldades” (“Mensageiro de Santo Antônio”, entrevista, novembro de 1987).

O segundo segredo de sua fidelidade a Deus e à Igreja estava no seu amor à Palavra de Deus. Afinal, havia aprendido com São Paulo aquilo que há pouco ouvimos: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,16-17). Depois, a senhora ensinava essa palavra não tanto com discursos ou homilias, mas com a força do seu testemunho vivo. O povo entendeu sua linguagem. Não era preciso que sua voz fraquinha dissesse alguma coisa: seu beijo nas crianças, seu abraço tão baiano e sua carícia na cabeça de quem a procurava diziam tudo.

Não sei se quem a ensinou a ser uma pedinte insistente – ou, como alguns a chamavam, “uma pedinchona”. Quem lhe ensinou isso terá sido a viúva sobre a qual Jesus falou em sua parábola, aquela que conseguiu que o juiz lhe fizesse justiça diante de sua persistência? O que sei é que o pensamento de muitos que estão aqui, quando ouviram a proclamação do Evangelho, deve ter-se voltado para a Feira de São Joaquim, onde, saindo de uma velha kombi, a senhora começava a estender sua mão, com a pergunta: O que o senhor tem para dar para os meus pobres? O que o senhor guardou para os meus doentes? Não levou muito tempo para todos descobrirem que era mais fácil e cômodo lhe entregar logo alguma coisa do que lhe dizerem um “Não”. Ainda mais que todos sabiam que a senhora não pedia para si; a senhora insistia em seus pedidos pensando nos doentes que se multiplicavam. Afinal, sabia muito bem que naquela mesma hora, no Hospital Santo Antônio, havia centenas de pessoas à sua espera, certas de que logo logo a senhora chegaria com alimentos e remédios. E quando, com sua voz e sua mão estendida, não conseguia os recursos de que precisava, pobre de Santo Antônio, que tinha que se desdobrar para atender aos inúmeros pedidos que a senhora lhe fazia!

Este domingo é dia de festa para todos nós. Mas é também um dia para aprendermos com a senhora um pouco do seu jeito de ser. Admiro, por exemplo, sua capacidade de trabalhar com pessoas de qualquer classe social. A senhora sabia que, sozinha, poderia caminhar mais depressa, mas, motivando outros para os seus ideais, iria mais longe, atingiria um maior número de necessitados – e por muito mais tempo. Por isso mesmo, soube envolver em seus trabalhos comerciantes e políticos, religiosos e sacerdotes, pais e mães de família. Quantas vezes, nestes meus anos de Salvador – saiba que sou soteropolitano como a senhora! – ouvi muitas pessoas falarem com alegria e, digo mais, com certo orgulho: “Eu conheci Irmã Dulce. / Eu trabalhei com Irmã Dulce! / Meu pai, doente, foi acolhido por Irmã Dulce!”

Muitos estão descobrindo, Santa Dulce dos Pobres, que o que distinguia seu trabalho pelos menos favorecidos era o amor. Esse seu amor a levava a perguntar-se como era possível que, num país com tantas riquezas, pudesse haver pessoas passando fome ou não tendo um lar para morar. Mais do que reclamar da sociedade, a senhora foi à luta, convicta de que – e aí está uma outra lição que a senhora nos deixou! – que quando ajudamos os pobres eles, na verdade, é que nos ajudam. Afinal, neles está Jesus! A senhora via os necessitados a partir de Cristo; a senhora os via como Cristo os via. Deviam ecoar continuamente em seu coração as palavras do Jesus, referindo-se ao atendimento dado aos necessitados: “Foi a mim que o fizeste!” (Mt 25,40). Queremos, pois, guardar está sua lição: tudo o que a senhora fazia tinha como ponto de partida a sua amizade pessoal com Jesus.

Uma outra lição que a senhora nos deixou é que mais do que dar pão aos necessitados, o que já seria muito, é preciso lhes transmitir valores. Foi isso que a levou a dizer: “A melhor recompensa que recebo é quando, transbordantes de alegria, [os pobres e necessitados] ganham novas forças para superar as dificuldades futuras e esquecer as vicissitudes passadas” (Mensageiro, id.).

Como não lembrar, também, sua confiança na Divina Providência? Essa nem sempre se manifesta na hora que desejamos. Bem que o apóstolo Paulo nos advertiu: o “o amor é paciente… tudo espera… tudo suporta…” (1Cor 13). O amor confia!

Hoje é um dia de festa, Santa Dulce dos Pobres. Mas aprendemos com a senhora a ser realistas. Assim, sabemos que, se sairmos agora pelas ruas de nossa cidade, de nosso Estado ou de nosso país, veremos que há muitas pessoas que a deixariam inquieta. Sim, há muito a ser feito, para que as desigualdades entre os filhos e as filhas de Deus sejam superadas; para que o amor aproxime os diferentes, e os necessitados tenham parte na distribuição das riquezas que Deus deixou para todos os seus filhos e filhas. A senhora fez a sua parte. Cabe-nos, agora, imitá-la e fazer a nossa parte; cabe-nos multiplicar-nos, não permitindo que nos atinja o vírus do individualismo ou o da indiferença. A mundo precisa de muitas “Irmãs Dulce”. Se a Igreja a coloca agora em lugar de destaque é para que a luz de Cristo, que se reflete na senhora, seja vista por nós e nos anime a fazer o que estiver ao nosso alcance para tornar o mundo melhor. Se tivermos essa disposição e confiarmos na Providência Divina, descobriremos que, colocando Deus no centro de nossa vida e amando o próximo como a nós mesmos, o mundo se tornará melhor e não passaremos por esta  terra em vão!

Obrigado, por sua vida e seu testemunho, Santa Dulce dos Pobres! Obrigado pelas lições que nos deixou! Obrigado, muito obrigado, Anjo Bom do Brasil!

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