Quaresma: um convite de Deus à conversão

Ir. Tomás de Aquino Santos Nonato, Obl OSB

Oblato Secular Beneditino da Arquiabadia de São Sebastião da Bahia

da Congregação Beneditina do Brasil.

 

O calendário civil nos apresenta o tempo como um movimento linear e constante em direção a um futuro sempre distante, porque inalcançável, e sempre próximo, porque imediatamente seguinte ao instante presente que, fugidio, logo é passado e já não importa. Vivemos o tempo assim como uma corrida em busca do novo. Contudo, a Santa Igreja, nossa mãe, apresenta-nos o tempo litúrgico em uma dinâmica diferente: pensa-o como kairós, como tempo da graça de Deus, e, assim, esforça-se por apresentar-nos os tempos litúrgicos que se repetem anualmente como oportunidades para vivermos novamente, mas sempre de modo novo, o tempo da graça de Deus. Assim, uma vez mais a Igreja nos apresenta a Quaresma, este tempo singular em que ressoa sempre de novo e como novo o convite do Senhor: “convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

As práticas da Quaresma – orações, jejuns, abstinências, esmolas, práticas devocionais e mesmo a Sagrada Liturgia – não têm sentido em si mesmas, antes existem para dar corpo ao esforço de nossa Santa Mãe Igreja de anunciar com renovado entusiasmo o convite à conversão. Por isso, o ponto de partida da Quaresma é o reconhecimento de que somos pecadores e o sincero desejo de conversão. A partir desse elemento, tudo passa a fazer sentido; sem essa baliza, nenhuma observância quaresmal nos poderá aproximar de Deus. Ao recebermos as cinzas no primeiro dia da Quaresma, fazemos essa confissão pública e nos lançamos à ascese quaresmal. Cuidado, porém, para não cairmos na tentação de creditar a nosso rigor ascético aquilo que só pode vir da misericórdia divina: o perdão e a conversão. Se, por um lado, Deus não nos violenta nem para nosso próprio bem e espera pacientemente que nós façamos o movimento de retornar a ele, por outro lado não é o nosso mero esforço de conversão e penitência que nos alça a salvação, dom gratuito que Deus nos concedeu “quando ainda éramos inimigos” (Cf. Rm 5,9-10). Tudo somado, podemos dizer com fé certa: sem nosso decidido esforço de conversão, não seremos salvos, mas a nossa salvação é dom gratuito do Senhor.

Converter-se é mover-se para Deus, é refazer o caminho de Adão. No éden, ao descobrir-se pecador, Adão se esconde e foge da vista do Senhor que sai a sua procura (Cf. Gn 3,8). Desde então este tem sido o movimento do ser humano e de cada um de nós em particular: pecamos e nos escondemos de Deus na vá esperança de ocultar nossa vergonha. E tentamos ocultar nossa vergonha negando e escondendo nosso pecado – aparentando hipocritamente uma virtude que não temos – ou negando a própria presença de Deus – seja pelo ateísmo explícito de quem negar que Deus exista, seja pelo ateísmo implícito de quem vive como se Deus não existisse – porque, se Deus não existe, eu não tenho do que me envergonhar. Mas, Deus existe… como existem também meu pecado e minha vergonha e por isso continuo, como Adão, a esconder-me dele. Mas, convenhamos, esta é uma atitude infantil.

Converter-se é encarar as próprias escolhas (exame de consciência), arrepender-se de seus erros e assumir as consequências de seus atos diante de Deus e dos irmãos. Converter-se é fazer o caminho inverso de Adão: é sair das sombras do pecado, caminhar para Deus confiante em seu amor e apresentar-se nu diante dele, sem fingimentos ou desculpas, totalmente transparente em nossa consciência de que pecamos, mas que ele nos ama, nos acolhe e nos perdoa, se para ele retornamos arrependidos e confiantes. A Quaresma nada mais é que o tempo litúrgico em que celebramos o mistério desse Deus que sai a nossa procura, que sabe que pecamos e que nos busca, e em relação ao qual nos esforçamos para corresponder com o movimento de conversão, isto é, de sair da atitude infantil e negacionista em que nos escondemos, caminharmos em direção desse Deus de amor e nos entregarmos aos juízos de sua misericórdia.

Neste ano de 2021, como de resto também se deu em 2020, vivemos a Quaresma em meio à pandemia da COVID19 que continua a ceifar inúmeras vidas humanas e a impor incontáveis obstáculos a vida de todos nós. Mas, é neste contexto que o Senhor nos chama hoje à conversão pela voz de sua Esposa, a Igreja, nossa Mãe, que nos diz: “Voltai ao Senhor, vosso Deus, ele é bom, compassivo e clemente” (Jl 2,12s). Embora o tempo litúrgico seja cíclico, ele se encarna no tempo de nossa vida e dele tira sempre novos sentidos. Assim, é neste tempo de pandemia que precisamos encontrar os sinais com que Deus nos quer falar, os meios com os quais ele nos quer levar à conversão. Examinemos nosso entorno e vejamos os sinais de Deusa nos convidar: “retornai a mim de todo o coração, com jejum, com lágrimas e gritos de luto” (Jl 2,12) e a nos dizer com voz terna e consoladora: “vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso” (Mt 11,28).

Viver a Quaresma em tempos tão singularmente sombrios deve ser uma oportunidade – um kairós – para todo cristão. Nosso Deus, “que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva” (Cf. Ez 18,23), permitiu-nos viver estes tempos de pandemia: que isto quer dizer para mim? Como esta realidade pode ser lida por mim a luz da fé? Como meu compromisso com Deus e com os irmãos – pois “se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20) – foi desafiado pelo contexto pandêmico em que vivo? Como minha fé no Deus da vida se comporta neste contexto de morte e desesperança? Como o meu esforço pessoal de conversão para Deus ilumina o meu modo de viver os desafios e as angústias do tempo presente? Como a pandemia impacta meu relacionamento com Deus? Ao enfrentarmos estas questões, e outras do mesmo jaez, poderemos ver que a pandemia, tal qual a tragédia da queda da Torre de Siloé (Cf. Lc 13,1-5), pode se transformar em ocasião de salvação se nos arrependermos de nossos pecados e voltarmos ao Senhor de todo o coração. Que esta Quaresma na pandemia seja vivida como aquilo que é: um tempo de graça da parte do Senhor.

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