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Revoluções árabes muçulmanas

Por padre Moussa Serge Traore, mafr*

Os atos terroristas violentos de radicais muçulmanos assustam. Quem se mata para matar os outros não é um bandido. É um “mártir” por uma causa nobre aos seus olhos. Iniciamos uma série de artigos para nos ajudar a entender o terrorismo muçulmano que está acontecendo.  Na verdade uma revolução ideológica complexa está se realizando no mundo árabe muçulmano. Não se trata de eliminar os cristãos e os judeus. Tudo começou como um conflito político interno nos países muçulmanos.

Trata-se primeiro de desestabilizar os detentores atuais do poder político, o establishment dos países muçulmanos. O sistema democrático impôs-se com uma multiplicidade de partidos políticos e um princípio sagrado: quem ganha as eleições governa. Então os muçulmanos radicais começaram a formar partidos políticos com um projeto político religioso. Assim nasceu, por exemplo, a Frente Islâmica da Salvação na Argélia que se tornou uma força social imensurável. Os partidos islâmicos jogaram o jogo democrático e ganharam as eleições.

Mas o projeto político deles assustou o establishment.  Os islamistas querem organizar a sociedade humana de acordo com a lei divina eterna e definitivamente revelada pelo profeta Maomé, e imutavelmente escrita no livro sagrado, o Corano. A reação do poder foi radical e violenta: aprisionamento dos líderes, supressão dos partidos e associações. A resposta foi uma guerra civil na Argélia. Os monges de Tibhirine e outros missionários foram vítimas desta guerra civil.

Essa agitação violenta dentro dos países muçulmanos entre os detentores do poder, o establishment, e os novos conquistadores radicais do poder faz parte da escatologia islâmica. A história da comunidade muçulmana se desenvolve em quatro períodos: 1) O período do apostolado do profeta; 2) O período dos califas (chefes políticos e religiosos, sucessores do profeta); 3) O período da monarquia e do poder absoluto e 4) O regresso do califado. Estamos agora no terceiro período.

As revoluções populares caçaram os detentores do poder absoluto. Esses líderes políticos muçulmanos são vistos como ditadores, aristocratas, despotistas que se enriquecem a custa dos pobres. Servindo os interesses do Ocidente em detrimento dos interesses dos seus povos eles se prostituem e abandonam a fé para uma política de materialismo ateísta.  Os novos conquistadores do poder são gente simples, de classe média e pobre, de diferentes tribos, clãs, castas, e, sobretudo, eles são muito religiosos, inflamados por pregadores simples como eles. Eles iniciaram uma verdadeira revolução política e religiosa. Uma vez que esses ditadores muçulmanos foram destruídos, as revoluções devem avançar contra o Ocidente para libertar o povo da dependência infame e estéril de uma civilização ocidental judeu-cristã imperialista, violenta e ateísta, que está em declínio. Um Estado Islâmico emerge para introduzir um novo sistema de governo que impõe uma adesão exclusiva aos princípios do Islã. A etapa seguinte será a criação de uma sorte de nação unida dos estados islâmicos. Tudo isso é uma preparação para entrar no quarto período: o retorno ao califado, um líder político e religioso poderoso que dominará o mundo.

*Padre Moussa Serge Traore, mafr, é mestre em Estudos de Religiões e Culturas, com especialização em Islã. Diretor do Centro Cardeal Lavigerie de Estudos e Pesquisas para o Diálogo Inter-religioso e Intercultural na UCSal.  Ele é autor de dois livros: The Truth in Islam (l’Harmattan, 2010), e Reencontrar a Harmonia pela Misericórdia de Deus (O Lutador, 2016).

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