Silêncio e escuta

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

Vivemos num mundo barulhento. Por isso, há muita dificuldade para escutar as pessoas. O barulho está presente em toda a parte, sobretudo, nas grandes cidades, nas ruas e nas casas. Ambientes barulhentos não permitem a escuta atenta e podem afetar a capacidade de ouvir. Há ambientes, como festas e confraternizações, que embora pretendam aproximar as pessoas, acabam dificultando a comunicação. Gritar para se comunicar não é saudável para a saúde, nem para os relacionamentos humanos. É comum confundir animação com barulho. Hoje, o silêncio parece incomodar, pois leva a escutar o outro, a si mesmo e a Deus.

É preciso resgatar o valor do silêncio como condição para o diálogo, a escuta e o discernimento, bem como, para a saúde mental e emocional. No meio de tantas vozes e rumores, é preciso encontrar tempo para fazer silêncio a fim de aquietar o coração, recuperar a calma e a serenidade, suavizar os ouvidos e repousar.

O silêncio interior permite contemplar o mistério de Deus na vida, tomar consciência de si e do próximo. Deus fala ao coração capaz de silenciar tantas vozes e rumores, permitindo discernir o que fazer nas situações mais difíceis. Há momentos de dor, como ocorre no luto, em que são mais importantes os gestos de proximidade e solidariedade, como um abraço silencioso, do que muitas palavras. Aprender ou reaprender o valor do silêncio é uma tarefa de extraordinária importância nos dias de hoje. Para tanto, um passo importante é desconectar-se da internet para conectar-se consigo e com o outro.

Têm sido frequentemente divulgados métodos de meditação e oração que podem ajudar a silenciar ou que exigem o silêncio como condição prévia. No entanto, embora possam ser muito importantes no âmbito da espiritualidade, não é preciso técnicas sofisticadas para saborear o valor do silêncio orante e contemplativo. Basta dispor-se e sempre que possível encontrar um ambiente favorável, o que é um grande desafio no ritmo urbano frenético e ruidoso em que se vive. As técnicas podem ajudar, mas não dispensam o esforço cotidiano e permanente para se alcançar a serenidade e a paz.

Esta atitude não deve ser confundida com o fechamento sobre si, que dificulta a convivência fraterna e a solidariedade. Ao contrário, o silêncio permite abertura ao próximo, tomada de consciência dos que nos rodeiam e disposição para o diálogo atento e respeitoso. Não gritar com as pessoas, não interromper quem está falando ou sentar-se ao invés de ouvir em pé, podem ser um bom começo para silenciar e escutar.

Há momentos em que é preciso, sem dúvida, falar e não silenciar, para não ser conivente ou indiferente diante de tantas situações injustas ou de sofrimento, mas para que isso possa ocorrer de modo justo é preciso cultivar o silêncio que humaniza e é humanizador.

*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 9 de junho de 2024.