Sinodalidade e Profecia

Por padre Jorge Valois, sacerdote do clero da Arquidiocese de São Salvador da Bahia

Celebrando a Solenidade do Nascimento de São João Batista, aquele a quem Jesus chamou de “o maior de todos os profetas” (Mt 11,14), porque ele não apenas profetizou a vinda do Messias, mas o apontou diretamente: “Eis o Cordeiro de Deus!” (Jo 1,29), somos chamados a refletir sobre as importantes relações entre o exercício da sinodalidade na Igreja e o carisma da profecia.

De fato, a profecia é um carisma (1Cor 12,10) e é um dos fundamentos da comunidade eclesial, conforme nos ensina o apóstolo Paulo: a Igreja é fundada de apóstolos e profetas, tendo Jesus Cristo como pedra principal (Ef 2, 20). Ser profeta não é adivinhar o futuro, mas é falar em nome de Deus, trazer uma mensagem divina por inspiração do Espírito, tornando, assim, manifesto qual a vontade de Deus para determinado contexto.

Isso estava muito presente na experiência espiritual do povo de Israel, quando, por exemplo, o grande profeta Elias dirigia uma mensagem profética ao rei Acab (1Rs  21,17-29), apesar de este sempre desconsiderar a atividade do profeta, tendo em vista que Elias sempre trazia uma palavra que contrariava aos planos do rei. Também no Novo Testamento, vemos aparecer o profeta Ágabo (At 11,28), que revelou sobrevir uma grande fome e orientou a Igreja para que realizasse uma ajuda para as comunidades da Judeia.

Assim, o exercício da sinodalidade é uma das formas em que se pode manifestar o carisma da profecia na Igreja. É o Espírito quem inspira, a fim de que homens e mulheres, reunidos em assembleia, possam falar em nome do Senhor, trazendo uma mensagem que o próprio Deus queira revelar para aquela situação concreta. Já temos bem presente e atuante o ministério apostólico, exercido por meio dos bispos, mas, a sinodalidade quer ser um instrumento para a valorização e atuação do ministério profético.

De fato, todos os batizados são investidos no múnus profético, porque a vida cristã implica em ser “um sinal de contradição” (Lc 2,34) para o mundo, pelo anúncio e testemunho do Evangelho. As assembleias sinodais são espaços nos quais a dimensão profética dos batizados se revela, porque todos são convidados a abrir-se a essa dimensão, por meio da escuta orante, silenciosa e ativa da voz de Deus. Com efeito, o profeta é aquele que fala as palavras de Deus, mas, para isso, ele precisa se colocar primeiro em atitude de escuta da voz do Senhor, porque não fala em nome próprio, mas inspirado pela graça divina.

Assim, a escuta é orante, porque a oração é entrar em comunhão com Deus, abrir-se à intimidade e à amizade com o Senhor, que “revela os segredos aos que o temem e lhes dá a conhecer a Aliança” (Sl 25,14). Por isso que o profeta é, antes de tudo, alguém que se coloca na humildade, com reta intenção e pureza de coração, com a qual se vê a Deus (Mt 5,8). A escuta orante, por sua vez, é ainda uma escuta silenciosa, porque não é no barulho que o Senhor se manifesta, mas como um sussurro de uma suave brisa (1Rs 19,12), indicando que é no silêncio que se torna possível acolher e contemplar a Deus, sair da superficialidade e “avançar para as águas mais profundas” (Lc 5,4), nas quais o Senhor se deixa revelar e deseja que permaneçamos na comunhão e amizade com Ele.

E, como fruto de uma escuta orante silenciosa, a escuta profética é ainda ativa. De fato, não se trata de uma experiência puramente passiva, na qual seríamos apenas marionetes de Deus. Não, a inspiração do Espírito se dá no interior de alguém também com suas limitações e anseios, com perspectivas e mentalidade próprias. Como a Virgem Maria acolheu o Verbo divino no seu seio, os cristãos são chamados a acolher a palavra divina no seu interior condicionado e limitado, mantendo, porém, o desejo de fidelidade à voz de Deus. A escuta ainda é ativa, porque a inspiração divina se dá não como um mapa da mina, mas apontando uma direção, para a qual se caminha com passos próprios. De fato, é ação também da Providência a sabedoria e a prudência dadas aos cristãos, para que eles possam ter suas decisões iluminadas e executadas. Desse modo, seja por meios ordinários ou extraordinários, o essencial é saber que ambas as manifestações provêm do mesmo Espírito Santo.

Façamos dos diversos modos do exercício da sinodalidade uma forma de surgimento e valorização do carisma profético, a fim de que vivamos, com toda a plenitude, o derramamento do Espírito acontecido no dia de nosso batismo, sendo um povo no qual “vossos filhos e filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Jl 2, 28).