Sinodalidade: Experiência de Pentecostes

"A sinodalidade é uma das formas de viver essa instrução do Espírito"
Padre Jorge Ricardo Valois
Sacerdote do clero da Arquidiocese de São Salvador da Bahia

Neste mês em que celebramos a Solenidade de Pentecostes, não poderíamos deixar de refletir sobre a sinodalidade como fruto da vinda do Espírito Santo sobre a Igreja. Pentecostes nos recorda que a Igreja é a Esposa de Cristo, já que o laço que une Cristo à sua Igreja é o Espírito Santo. Por isso que Jesus prepara a vinda do Espírito, dizendo “não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18), ou seja, não vos deixarei sem guia, pois, depois da Ascensão do Senhor, a ação de Cristo na sua Igreja se dá pelo Espírito Santo.

Portanto, se a sinodalidade é da natureza da Igreja, ela não pode ser desconectada da ação do Espírito Santo. Em primeiro lugar, devemos reconhecer que é o Espírito que gera a comunhão na Igreja. O evento de Pentecostes, no Cenáculo, é o oposto da torre de Babel. De fato, em Babel, os homens falam diversas línguas porque cada um estava animado por um espírito diferente, entenda-se, um projeto, uma motivação e uma finalidade diferente, por isso, a confusão das línguas, representando a falta de comunhão entre os construtores daquela torre.

Porém, o mesmo não acontece em Pentecostes. Os apóstolos foram animados por um mesmo Espírito, de modo que o louvor a Deus poderia ser entendido nas diversas línguas dos homens que estavam em Jerusalém (At 2,4), por ocasião da peregrinação do Pentecostes judaico. Ou seja, os apóstolos foram inundados com a força do Espírito Santo que lhes deu um discernimento a respeito do projeto de Deus, manifestado em Jesus Cristo, uma motivação para o anúncio, e uma finalidade, que é a salvação de toda a humanidade. Por isso, o Cenáculo é o oposto da torre de Babel, já que a desunião se torna união, o individual se torna comunitário, a confusão se muda em concórdia e a dispersão se transforma em unidade. Com efeito, Santo Irineu nos ensina que “assim como a farinha seca não pode, sem água, tornar-se uma só massa nem um só pão, nós também, que somos muitos, não poderíamos transformar-nos num só corpo, em Cristo Jesus, sem a água que vem do céu”.

O apóstolo Paulo nos ensina que “há diversidade de carismas, mas o mesmo é o Espírito” (1 Cor 12, 4). Ou seja, o Espírito Santo é quem suscita a pluralidade na Igreja, de vocações, de ministérios, de missões, de carismas, de espiritualidades, mas é o mesmo Espírito que suscita a unidade no seguimento de Jesus Cristo e na profissão da fé única. Portanto, é o Espírito Santo que também suscita o dom da sinodalidade na sua Igreja, porque a sinodalidade pressupõe a diversidade, mas também pressupõe a unidade de todos os fieis em Cristo, iluminados pelo mesmo Espírito.

Dessa maneira, estar reunido em uma assembleia sinodal, como as nossas assembleias paroquias ou reunião dos Conselhos Pastoral e Econômico, é tornar presente a experiência do Cenáculo. Porque somos pessoas diferentes, como os apóstolos eram também diferentes entre si, mas todos são agraciados pelo mesmo Espírito que lhes concedia que falassem (At 2,4). Ou seja, todos podem, inspirados pelo mesmo Espírito, expressar uma iluminação dada pelo Espírito, a respeito da decisão ou discernimento que precisa ser tomado.

Nós somos instruídos pelo Espírito, porque foi o próprio Jesus quem disse que “o Paráclito vos ensinará tudo e vos recordará o que vos disse” (Jo 14, 26). Dessa forma, a sinodalidade é uma das formas de viver essa instrução do Espírito, pois é Ele quem nos dá o dom da fé e nos faz ter um discernimento a respeito de qual maneira a Igreja pode ser mais eficaz na sua missão de anunciar o Evangelho. Assim, apoiados nessa instrução do Espírito, que é verdadeira e não mentirosa (1Jo 2, 27), nós somos capacitados pelo mesmo Espírito para a comunhão e para o exercício da sinodalidade.

Por isso, a sinodalidade em nossa Igreja nos faz experimentar a ação do Espírito como no dia de Pentecostes, pois, assim como os apóstolos no Cenáculo, também nós, reunidos em nossas assembleias e conselhos, somos iluminados pelo Espírito e podemos conhecer qual a vontade de Deus para nossa Igreja local e qual proposta que a assembleia leva ao discernimento final dos pastores da Igreja. Portanto, estejamos sempre abertos à ação do que o Espírito diz às Igrejas (Ap 2,7) e, ao celebrarmos o Santo Pentecostes, peçamos a Deus a graça de experimentar essa graça não apenas na liturgia, mas também na vida pastoral de nossas comunidades eclesiais e de nossa Igreja local.

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