Tráfico de pessoas

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

O tráfico de pessoas é um tema desconhecido ou considerado distante, especialmente no meio de tantas preocupações com a pandemia. O mercado de seres humanos é uma realidade cruel, com gente sendo vendida, comprada, trocada, explorada e escravizada. Infelizmente, a existência de várias formas de comércio envolvendo seres humanos não é algo novo, como podemos constatar no vergonhoso período da escravidão negra no Brasil. Não se trata de coisa do passado, nem restrita à algum país ou região, com suas várias expressões, principalmente a exploração sexual e o trabalho escravo, incluindo novas modalidades. Pode ocorrer dentro do país ou em âmbito internacional. Na pandemia, o tráfico de pessoas tende a se tornar ainda mais clandestino. Ignorar, negar ou minimizar a gravidade do tráfico humano dificulta bastante o seu enfrentamento. Uma sociedade que alcançou altos níveis de desenvolvimento econômico, avanços científicos e tecnológicos admiráveis, não pode continuar a gerar e a permitir violações à vida e a dignidade das pessoas.

As restrições às viagens e o fechamento de fronteiras durante a pandemia podem levar à sensação de que o tráfico de pessoas deixou de existir, favorecendo ainda mais a sua clandestinidade. Relatório recente do Departamento de Estado americano sobre este tema afirma que a pandemia fez crescer o tráfico de pessoas. As redes criminosas descobrem novos meios de operar, por exemplo, recorrendo à internet e às redes sociais. A grande maioria dos casos envolve pessoas mais vulneráveis, pelas precárias condições em que vivem, vitimando, sobretudo, crianças, jovens, mulheres e imigrantes, dentre outros grupos sociais em situação de risco. O agravamento dos problemas sociais na pandemia, como a pobreza e o desemprego, a falta de informações e alertas sobre o problema tendem a favorecer a sua permanência. Trata-se de uma atividade criminosa altamente lucrativa. Dados anteriores à pandemia elencava o tráfico de pessoas como a terceira fonte de lucro do crime organizado, em nível mundial, perdendo apenas para o tráfico de armas e de drogas.

O clamor das vítimas encontra-se silenciado pelo poder do crime organizado, pela falta de divulgação sobre o problema e pelo escasso investimento em programas de prevenção e repressão ao tráfico de pessoas. Tal clamor precisa ser ouvido pelos órgãos públicos, entidades da sociedade civil e Igrejas, que necessitam atuar de modo articulado, estabelecendo parcerias. Contudo, podemos contribuir para o enfrentamento deste problema, cultivando a cultura pela vida, valorizando e defendendo a vida, a começar das pessoas que nos rodeiam, sem jamais compactuar com o mercado humano ou dele aproveitar-se. É preciso permanecer vigilantes, alertando pessoas em situação de risco. Ninguém pode, jamais, ser comercializado ou escravizado. Pessoa humana não é mercadoria; é “imagem e semelhança” de Deus!

*Artigo publicado no jornal Correio, em 26 de julho de 2021.

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