Uma criança chamada Esperança

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Administrador Apostólico da Arquidiocese de São Salvador da Bahia

 

Os grandes poetas têm o mérito de definir em poucas palavras o que apenas intuímos. Ao lê-los, nos perguntamos: Como foi que não pensei nisso antes? Querendo descrever a virtude da esperança, voltei-me para Charles Péguy (†1914), que assim a apresenta: “A Fé é uma Esposa fiel./ A Caridade é uma Mãe./ Uma mãe ardente, toda coração./ Ou uma irmã mais velha que é como uma mãe./ Mas a Esperança é uma menina que parece não ser nada./ Que veio ao mundo no dia de Natal do ano passado./ Que ainda brinca com o janeiro bonacheirão./ Com os seus pinheirinhos em madeira alemã cobertos/ de neve pintada./ Com a vaca e o burro em madeira alemã./ Pintados./ E a manjedoura cheia de palha que os animais não comem./ Porque são de madeira./ Mas é essa menina que atravessará os mundos./ Essa menina de nada./ Só ela, guiando as outras, atravessará/ os mundos revolvidos.” E continua: “A pequena esperança caminha entre as suas irmãs mais velhas/ e não lhe é dada a devida atenção./ No caminho da salvação, no caminho da carne,/ no caminho pedregoso da salvação, na estrada interminável,/ nessa estrada entre as suas duas irmãs,/ caminha a pequena esperança./ Entre as duas irmãs grandes./ Aquela que é casada, e aquela que é mãe./ E ninguém repara nela, o povo cristão só repara/ nas duas irmãs grandes./ A primeira e a última./ Que caminham com pressa./ Para o tempo presente./ No instante momentâneo que passa./ O povo cristão só vê as duas grandes irmãs./ Só olha para as duas irmãs grandes./ A da direita e a da esquerda./ E quase não repara na que caminha no meio”.

O poeta francês vê a esperança, pois, como uma criança que arrasta as outras duas irmãs (fé e caridade). Ela sabe que se, parar, tudo para.

Em tempos de Covid 19, em que inúmeras seguranças nossas estão sendo postas à prova, o coração humano se pergunta: em quem por a nossa esperança? Como ficam as aspirações de felicidade do coração humano?

No início de sua pregação, Jesus subiu num pequeno monte e, de lá, antecipou o que ensinaria ao longo de três anos. Essas suas palavras ficaram conhecidas como “O Sermão da Montanha” (Mt 5-7). Passaram-se os séculos e aquilo que parecia uma utopia se manifestou como um programa de vida, que iluminou a vida de um Francisco de Assis, de uma Teresinha do Menino Jesus, de uma Dulce dos Pobres e de tantos outros. Esses santos puseram sua esperança nas promessas de Cristo e caminharam apoiando-se na graça do Espírito Santo. Alimentaram sua esperança na oração e na certeza de que para Deus nada é impossível. Com o apóstolo Paulo, proclamaram: Cristo é a nossa esperança! (1Tm 1,1).

Se alimentarmos essa virtude, também nós, renovados, ressuscitaremos desses tempos difíceis para uma vida nova.

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