Hoje a Igreja celebra a Solenidade da Assunção da Virgem Maria ao céu. Para falar sobre este dogma, o Setor de Comunicação da Arquidiocese de Salvador entrevistou o doutor em Mariologia, padre Adilton Pinto Lopes, que também é o reitor da Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia e professor da Universidade Católica do Salvador (UCSal). Confira:
Setor de Comunicação – Para os cristãos, o que significa a Assunção de Nossa Senhora?
Padre Adilton Pinto Lopes – O Pai, pelos méritos do Seu Divino Filho, Jesus Cristo, não permitiu que o curso natural da morte agisse em no corpo santo e virginal de Nossa Senhora. Não houve ação de bactérias, nem mal cheiro, não houve apodrecimento da sua carne. Seu corpo, por pura vontade da Trindade foi conservado incorrupto. E do sepulcro, a Virgem Maria foi ressuscitada, glorificada e elevada aos céus com toda sua criaturalidade humana, sua feminilidade, seu corpo e alma foram arrebatados até a presença de Deus.
O Santo Padre Pio XII, depois de ter escutado também os bispos e acolhido os movimentos assuncionistas, em 1º de novembro de 1950 declarou que Maria, digna Mãe de Deus e sempre Virgem, foi elevada aos céus de corpo e alma. O fundamento da Assunção e a plena glorificação de Maria está na Ressurreição de Jesus Cristo: Sua Mãe Santíssima foi a primeira criatura humana a experimentar esta graça. A única criatura plenamente humana que está no céu com corpo e almas unidos é a Virgem Maria.
Por isso, a Assunção da Virgem é a antecipação Nela do que a Igreja será, do que a humanidade nova será, sem mancha e sem ruga. A Virgem Assunta é sinal da Igreja plenamente acabada, realizada e santificada. O que Deus realizou em Maria com sua Assunção fará com todos os seres humanos, não somente cristãos, mas a todos que, seguindo sua consciência, buscam viver a justiça e a caridade. Todavia, lá na glória, todos saberão que ninguém é salvo sem a graça de Cristo.
Esta Solenidade, hoje, é também a nossa Solenidade; é a esperança de que, um dia, todos os redimidos estarão plenamente glorificados; é a Solenidade da vitória da vida, é o ápice do fruto da Cruz, é a vitória da humanidade. O que Deus realizou na Virgem de Nazaré, quer realizar em cada pessoa humana.
Setor de Comunicação – Por que Nossa Senhora foi elevada ao céu?
Padre Adilton Pinto Lopes – Nossa Senhora foi elevada aos céus em corpo e alma, não pelos méritos dela. Nada na Virgem de Nazaré é mérito dela, todas as suas prerrogativas existem porque Deus, desde toda a eternidade, a escolheu para ser a Mãe do Seu Divino Filho, que é o próprio Deus. Por isso, a Virgem Maria é Mãe de Deus, foi criada sem a mancha do pecado original e foi Virgem antes, na hora e depois do parto.
A Virgem de Nazaré, que foi plenamente redimida, pela graça da Sua Imaculada Conceição, foi predestinada para que gerasse a Deus, antes em seu coração e depois do seu corpo. Com o seu sim na Anunciação, a Encarnação se dá nela, o Verbo se faz Carne. A missão da Virgem de Nazaré sempre se manteve unida à missão de Cristo. Ela esteve presente na morte de Jesus, inclusive em Pentecostes.
Jesus, que já tinha subido aos céus, quis que ao seu lado estivesse para sempre aquela que em tudo esteve unida à caminhada salvífica Dele. Maria está viva em corpo e alma devido à sua fidelidade ao projeto do Pai e por querer da Santíssima Trindade. Em Maria, toda criatura humana já está no coração da Trindade.
Setor de Comunicação – Quando a assunção de Nossa Senhora passou a ser um dogma da Igreja? O que é um dogma?
Padre Adilton Pinto Lopes – Dogma é uma verdade de fé, que a Igreja proclama. Pode ser de modo extraordinário por um Concílio ou um Sínodo. De modo extraordinário, existe o chamado Dogma ex-cathedra, no qual o Papa possui infalibilidade em questões de fé e de moral. Como exemplos nós temos os dogmas da Imaculada Conceição e o dogma da Assunção da Virgem Maria de corpo e alma aos céus.
Existiu um longo percurso na História da Igreja, no qual alguns padres, já no século IV, falavam do corpo incorrupto da Virgem Maria. O Imperador Maurício determinou a celebração da Assunção de Maria, no século VI, em 15 de agosto.
Tiveram muitos padres da Igreja, como São Germano, em Constantinopla, São João Damasceno e São Modesto, em Jerusalém, que falaram da sepultura e da glorificação de Maria. No fim do século XIX e início do século XX cresceu no Ocidente o Movimento Assuncionista, que pediu ao Papa Pio XI a proclamação do Dogma, mas foi o Papa Pio XII com a bula Munificentissimus Deus que, em 1º de novembro de 1950, declarou como verdade de fé católica a assunção da Virgem Maria. Assim, se um católico não acredita, comete pecado de heresia.
Setor de Comunicação – Qual a diferença entre assunção e ascensão?
Padre Adilton Pinto Lopes – Ascensão significa que Jesus subiu aos céus, à glória de Deus, ao coração da Trindade, pelo Seu próprio poder, por Sua própria Divindade. Ele, homem-Deus, retornou à glória do Seu Pai, por si mesmo.
Já a Virgem Maria foi elevada aos céus, foi levada ao Paraíso, não pelo seu próprio poder, mas tudo nela é graça aos méritos de Cristo. Foi a Trindade que quis que Maria, mulher, criatura humana, Nova Eva, estivesse em sua glória. Ela foi elevada, arrebatada, conduzida, por vontade de Deus Pai, por querer do Deus Filho e pela força do Deus Espírito Santo.
Setor de Comunicação – Qual o lugar que a Virgem Maria Santíssima tem na fé cristã?
Padre Adilton Pinto Lopes – Gostaria de recordar o que disse São Paulo VI na Marialis cultus: “Não se pode falar de Igreja, sem que nela esteja presente Maria”; também destaco a Lumen Gentium, capítulo VIII, do Vaticano II: “A Virgem Maria ocupa o lugar mais alto depois de Deus e mais perto de nós”.
A fé cristã tem como seu centro Jesus Cristo, verdadeiramente homem, verdadeiramente Deus, único Redentor do mundo. Tudo tem como essencial na vida cristã a Trindade Santa. Esta mesma Trindade quis que a Virgem Maria tivesse um local especialíssimo na história da salvação. Nossa Senhora aparece com uma tangencial, como a lua que recebe a luz do sol, que é Cristo.
A Virgem Maria é o membro supereminente da Igreja, perfeita e primeira discípula de Cristo. Tanto nós católicos, como os cristãos orientais, até os ortodoxos, não podemos pensar nossa fé cristã excluindo a Virgem Maria. Por isso, o Papa Bento XVI disse em Aparecida, nos fazendo um convite: “Entremos na Escola de Maria”. A escola da Virgem Maria é a escola de santos e santas. E o belo é que a verdadeira devoção à Virgem Maria é um abrir o coração para Jesus Cristo e o seu Evangelho.
Quem mais a ama é Jesus Cristo. A ama tanto que no fim da vida terrestre da Virgem Maria, Jesus a levou para o céu. No céu Maria não está escondida, ao contrário, na sinergia com o Espírito Santo ela age na Igreja, na humanidade, no coração de todos os homens e mulheres porque ela é Rainha e Mãe de Misericórdia.
Termino com o que nos ensinou o mártir destes tempos difíceis, São Maximiliano Maria Kolbe: “Devemos conquistar o mundo para Cristo pelas mãos da Imaculada”.




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