Espiritualidade cristã na Quaresma: itinerário de crescimento missionário a partir da CF 2022

Pe. Sergio Esteban González Martínez, CSS

Vigário paroquial na Paróquia São João Evangelista (Mussurunga)

 

A Campanha da Fraternidade 2022 tem como tema Fraternidade e Educação e como lema “Fala com sabedoria, ensina com amor” (cf. Pr 31,26). No Texto-base encontram-se algumas palavras que ajudam na compreensão da importância da busca de espaços participativos para ensinar caminhos educativos rumo à fraternidade: escutar, discernir e agir. A primeira das três palavras-chaves para os discípulos missionários que constroem a paz é a escuta. Mas, o que significa escutar? Como apreender a arte da escutatória? Indagando a palavra encontra-se que escutar é a relação de dois sentidos sensíveis às mensagens: ouvido e coração. A união desses dois elementos origina na vida dos discípulos missionários uma escuta integral, aquela capaz de perceber o conjunto todo, “com o ouvido e com o coração, que buscam a inteireza da realidade com tudo o que ela pode trazer” (CF 2022, n. 29).

A escuta integral – com o ouvido e o coração – chama como primeiro canal de percepção da realidade o silêncio. Ninguém escuta no barulho. Numa sociedade que tende a colocar muitos estímulos nas informações, promovendo a capacidade de divisão na potencialidade da escuta, cria-se cidadãos divididos, com a falsa concepção de escuta. O resultado desse sistema é promover uma escuta parcial. No momento de perceber a mensagem, o ouvido capta o conteúdo, mas o coração não o processa. Em outras palavras: o ouvido está fisicamente no espaço real e concreto, mas a mente encontra-se em outro; ou seja, o silêncio potencializa a capacidade da escuta e a faculdade de ficar só. Não em vão, Jesus Cristo exorta na primeira semana da Quaresma, ao ser conduzido pelo Espírito no deserto: “Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão; era conduzido pelo Espírito através do deserto” (Lc 4,1).

A arte de escutar revela a intenção da pessoa ao colocar o seu desejo e o seu pensamento em evidência, o diálogo do ouvido e do coração comunica a razão da escuta, e o seu interesse naquela pessoa, atividade ou coisa. Escutar revela o motivo da relação, quando Jesus escutava as pessoas, manifestava a sua finalidade na relação, “escutar o outro, como Jesus nos demostrou em toda a sua pedagogia, é o ponto de partida para acolher, compreender, problematizar e transformar a realidade” (CF, 2022, n. 27). Desta maneira, se escutar revela a intenção da pessoa e direciona à conjugação de verbos, caberia a realização de algumas perguntas: o que se escuta? Para que se escuta? O que tem aquela realidade que exorta a dedicar o tempo na escuta? O que se pretende nessa relação? Qual é a finalidade? Dentro desse contexto de introspeção pode-se colocar em evidência a intenção da escuta segundo a Campanha da Fraternidade 2022: Educar para a fraternidade. Sendo assim, afirma-se com certeza que, se o ouvido e o coração não conjugam verbos como consequência da escuta, assumindo compromisso, não é uma escuta verdadeira.

As duas outras palavras que o Texto-base da Campanha da Fraternidade apresenta são o discernimento e o agir. Entre a escuta e o agir situa-se o discernimento, mas, o que significa discernir? Se para escutar necessita-se de silêncio, para discernir precisa-se de tempo, que é o elemento essencial para um bom discernimento. Numa sociedade que fomenta a ideologia inversamente proporcional de tempo e resultado, o menor tempo investido numa atividade, maior eficácia; educar para criar processos a longo prazo com capacidade de construir a civilização do amor torna-se todo um desafio. A fraternidade acontece no tempo e por isso necessita de processo para educar no compromisso de: “promover a cultura do diálogo, globalizar a esperança, buscar uma verdadeira inclusão, criar redes de cooperação” (CF, 2022, n. 240).

O Papa Francisco desde o início do seu pontificado ressaltou que o tempo é superior ao espaço, exortando, por meio desse critério necessário para a construção da paz social e do bem comum, que “este princípio permite trabalhar em longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos” (EG, n. 223). Dentro desse pensamento pode-se trazer a última palavra, o agir. Como agir? Se para a escuta necessitava-se do silêncio e para o discernimento do tempo, para o agir pede-se a cooperação. A cooperação é o elemento essencial para educar para a fraternidade, não se pode pensar em uma verdadeira mudança social rumo à paz sem a participação de todas as partes da sociedade na realidade; é necessário “trabalhar em redes de cooperação” (CF, 2022, 177). A Igreja não tem resposta para todas as questões da sociedade, por isso necessita de dialogar e trabalhar em harmonia com três campos: os Estados, a sociedade – com a sua cultura e ciência – e os crentes que não formam parte da Igreja Católica (EG, 238).

Referências bibliográficas

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. 10. ed. São Paulo: Paulus, 2015.

CNBB. Campanha da Fraternidade 2022: texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2021.

FRANCISCO, P. Exortação Apostólica: Evangelii Gaudium – sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus/Loyola, 2013.