
Se você costuma participar da Procissão do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor no centro de Salvador, com certeza já viu — ou até recebeu — um dos ramos que o Sr. Nelson Barbosa entrega. É difícil passar despercebido pela caminhonete superlotada de folhagens verdes, estacionada ainda antes das 6h, no Campo Grande. Os ramos são distribuídos gratuitamente, um a um, como quem oferece um presente antigo e cheio de significado.
No total, já são quase três décadas que o Sr. Nelson cultiva muito mais do que plantas. Em sua roça localizada na região de Imbassaí – há 88,9 km de Salvador -, ele planta fé com as próprias mãos, regada diariamente sob o sol do litoral baiano. Ali, entre fileiras de licuri e coqueirinho, nasce um trabalho silencioso, mas essencial para a tradição que marca o Domingo de Ramos – em 2025, celebrado no próximo dia 13 de abril – na Arquidiocese Primaz do Brasil.
Todos os anos, na quinta-feira que antecede o Domingo de Ramos, pela manhã, começa a colheita. É a tiragem. Cinco pessoas o acompanham, recolhendo com cuidado os ramos que serão distribuídos. Na sexta-feira, a colheita continua, como um ritual já conhecido, vivido e repetido há anos. Cada ramo é cortado no tamanho exato, perfeito para ser segurado com leveza nas mãos de quem chegará à Praça do Campo Grande para participar da Bênção dos Ramos, que acontecerá às 7h30 sob a presidência do Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil, Cardeal Dom Sergio da Rocha. Em seguida, formando um verdadeiro tapete verde, os fiéis seguirão, juntos, até a Praça Municipal, onde o Cardeal presidirá a Missa que marcará o início da Semana Santa.
A média é impressionante: cerca de 30 mil ramos por ano. E não são apenas para os fiéis que lotam a procissão no Centro da cidade. Sr. Nelson também fornece ramos, gratuitamente, para as paróquias Ascensão do Senhor e Divino Espírito Santo e até para a capelania do Hospital São Rafael. Aliás, foi justamente no São Rafael que essa história ganhou raízes mais profundas.
“Quando o hospital surgiu, ali tinha muito plantio de coqueirinho. Eu frequentava a igreja, Ia todo domingo para a Missa das 7h30. Como não era permitido tirar os ramos do jardim, por conta do cuidado com a área verde, comecei a levar de casa. E assim foi começando tudo”, conta ele, com palavras que misturam memória e alegria.
Com o tempo, a necessidade cresceu. A demanda se espalhou pela cidade, e ele, atento aos sinais, comprou a roça. De início, cultivava licuri e dendê. Depois, os coqueirinhos vieram para ficar. O que começou como um gesto simples, virou missão. Uma missão verde, que brota da terra e floresce nas mãos de um homem comum, mas extraordinário. Sr. Nelson Barbosa, conhecido como o” homem dos ramos”, planta esperança e fé — e colhe, todos os anos, a gratidão de quem se encontra para celebrar a abertura da Semana Maior do Salvador.
Texto: Sara Gomes
Fotos: arquivo pessoal do Sr. Nelson Barbosa


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