Cardeal Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil
A difusão das apostas online é um fenômeno crescente no país, que pode ser facilmente comprovado pela televisão e internet. É grande a facilidade de acesso, 24 horas, aos sites de apostas. Ao mesmo, tempo tem crescido o “transtorno do jogo”, a compulsão por apostas esportivas e jogos de azar online, com suas tristes consequências. A propaganda estimula o apostador a continuar sempre a jogar na esperança de ganhar. A promessa de gratificação instantânea favorece o comportamento compulsivo. É um tema que necessita maior atenção, reflexão e iniciativas para o enfrentamento dos problemas que afetam a vida pessoal, profissional e familiar. O vício em apostas traz consequências danosas como o endividamento e impactos na saúde emocional. Casos inúmeros de compulsão por jogos vêm se tornando cada vez mais comuns no Brasil, sendo considerado um problema de saúde pública. O vício em jogos virtuais já consta na Classificação Internacional de Doenças (CID) como “transtorno do jogo”, exigindo a atenção de profissionais da saúde e terapias adequadas.
A proximidade e a atenção de familiares e amigos são muito importantes. Contudo, há muitos casos que necessitam de ajuda especializada. Os profissionais da saúde, especialmente no campo psicoterapêutico, bem como, a assistência espiritual, podem contribuir muito para a superação do problema. A fé e o cultivo da espiritualidade desempenham um papel fundamental. A tendência comum é a pessoa não admitir o transtorno ou pretender resolver sozinha. Por vergonha ou medo passa a esconder o problema que vive ao invés de compartilhar o que sente e buscar ajuda. É necessário admitir o transtorno do jogo para poder superá-lo.
Alguns passos importantes têm sido dados na regulamentação e fiscalização das bets. Mas é preciso avançar sobretudo na prevenção do transtorno do jogo e na assistência às pessoas que necessitam superar quadros de compulsão. Um dos pontos que requer maior atenção e regulamentação é o acesso de menores ao ambiente virtual, especialmente, quando se trata de plataformas de jogos online. É indispensável o cuidado da parte dos pais ou responsáveis, bem como, a atuação de governantes e legisladores. A legislação brasileira necessita responder melhor ao problema.
O limite entre o entretenimento e a compulsão é frágil no campo dos jogos online que prometem dinheiro fácil. O entretenimento cessa em caso de compulsão, pois não pode haver alegria onde não há liberdade. Compulsão por jogos de azar é enfermidade. Tende a criar dependência, fere a liberdade. O sentido da vida e a alegria de viver não podem depender de ganhar dinheiro em jogos de azar. A necessidade de obter dinheiro não se satisfaz recorrendo a apostas online. O assunto é sério e necessita ser colocado em pauta, pois vidas estão em jogo!
*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 08 de fevereiro de 2026.



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