Com o objetivo de conscientizar, à luz da Palavra de Deus, sobre o cuidado e a importância para a urgente necessidade de testemunhar e estimular a solidariedade, a Igreja no Brasil deu início à Campanha da Fraternidade 2020 nesta Quarta-feira de Cinzas, dia 26 de fevereiro. Com o tema “Fraternidade e vida: dom e compromisso” e o lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, a CF tem como inspiração a parábola do Bom Samaritano e a missão da Santa Dulce dos Pobres, o Anjo Bom da Bahia.
Na Arquidiocese de Salvador, o lançamento oficial aconteceu no Santuário Santa Dulce dos Pobres, localizado ao lado das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), fundadas pela religiosa que é a primeira santa desta época. A Campanha da Fraternidade 2020 foi apresentada ao Povo de Deus e aos profissionais que atuam em veículos de comunicação durante coletiva de imprensa conduzida pelo Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger; pelo capelão do Santuário, frei Mário Erky; pelo secretário da Ação Social Arquidiocesana, diácono Joaquim Nobre Chagas; e pela Irmã Olívia Lucinda, religiosa da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus – a mesma a qual Irmã Dulce pertencia.
De acordo com Dom Murilo, a realização da coletiva no Santuário dedicado à S\anta Dulce dos Pobres com a presença da imprensa e de pessoas que são assistidas pelas Obras Sociais Irmã Dulce deixa ainda mais claro que a Campanha da Fraternidade é algo concreto. “Para nos ajudar nessa reflexão, a Campanha vai em duas certezas. A primeira: da parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 5-17), é algo muito concreto que acontece hoje ainda, pois no mundo há muita gente ferida, machucada, esquecida à beira da estrada. Esta parábola é algo muito real, muito concreto; a segunda: a obra de Irmã Dulce vem nos mostrar que aquilo que Jesus pregou nessa parábola pode ser feito com cada um de nós, independente de classe, de sexo, de ter o poder econômico ou de ter capacidades especiais. A Campanha tem como lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, afirmou.
Realizada há 53 anos pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Campanha da Fraternidade deste ano tem o tema da caridade à luz do Bom Samaritano. Segundo o Texto-base, preparado pela Comissão Nacional da Campanha da Fraternidade, o tema escolhido, além de apresentar o verdadeiro sentido da vida proposto por Jesus, visa fortalecer a cultura do encontro, promover e defender a vida, despertar as famílias para o amor, preparar os cristãos para anunciar, através do testemunho e de ações concretas, o Reino de Deus. Nesta Campanha, também serão estimuladas a criação de espaços nas comunidades para que os fiéis percebam a vida como dom e compromisso. A motivação dos jovens quanto ao cuidado mútuo, bem como com o planeta também estão entre as inúmeras ações propostas para a Campanha da Fraternidade 2020, que propõe a compaixão, a ternura e o cuidado como exigências fundamentais da vida para relações sociais mais humanas.
“Nós temos que ter o olhar de Jesus para a realidade do mundo; o mundo que não é aquele que Deus sonhou, é muito diferente, porque Deus não quer que aconteça o que está acontecendo no Brasil: fome, 22,2% das crianças e adolescentes, com idades entre 0 e 14 anos, vivem em situação de extrema pobreza. A desigualdade é um triste distintivo da realidade brasileira, basta ver: o desemprego hoje no Brasil está na casa dos 12,7%, isso significa que 12 milhões e duzentos mil homens e mulheres estão desempregados. Além disso, 20 mil pessoas morrem anualmente em acidentes de trânsito e outras 20 mil ficam inválidas para sempre. É um problema sério! 23% dos jovens no Brasil não estudam e não trabalham. A Igreja, como boa samaritana, não pode ficar indiferente. Esse não é apenas um problema do Governo, mas sim de todos nós!”, destacou Dom Murilo.
Apesar dos números alarmantes que apontam para a triste realidade brasileira, iniciativas baseadas no Evangelho acontecem todos os dias. “Temos que notar que existe muita coisa boa, muita coisa positiva. Olhemos para uma obra como esta, das Obras Sociais Irmã Dulce, quanto trabalho, quanta dedicação, quanto voluntariado! Peguemos a Pastoral da Criança que tem, ao longo do Brasil, 74 mil voluntários que atendem a 800 mil crianças. São muitos os que se dedicam à Pastoral Carcerária, à Pastoral do Menor, ao Povo de Rua, à Pastoral da Pessoa Idosa… Só aqui na Arquidiocese estão 26 pastorais sociais”, afirmou o Arcebispo.

De acordo com o secretário da ASA, diácono Joaquim Chagas, a Campanha deste ano faz um apelo para que cada um se coloque no lugar do outro. “A Campanha tem como missão sensibilizar as pessoas, afinal ela é exatamente ver, julgar e agir. Sentir compaixão é a gente se colocar no lugar do outro, sentir e viver o que o outro está sentindo e vivendo”, afirmou.
Ver, Julgar e Agir
Como em anos anteriores, a Campanha da Fraternidade está dividida nos métodos “Ver”, “Julgar” e “Agir”. A partir do método “Ver”, os cristãos são convidados a refletir, observar e compreender a partir do olhar de Jesus. É, também, nesta primeira parte que a sociedade é alertada sobre os diversos olhares que conduzem à morte: desigualdade, abandono, aborto, desemprego, falta de condições básicas de saúde, automutilação, agressões, acidentes de trânsito, ataques contra os diferentes povos, feminicídios e conflitos por terra e água.
No método “Julgar” a CF 2020 aborda a compaixão para com o próximo, rompendo com a indiferença. “Se, por um lado, o olhar da indiferença gera tanto mal, o olhar da compaixão pode fecundar o bem no coração humano e conferir verdadeiro sentido à vida… O olhar da compaixão gera um ‘permanecer com’, uma presença que salvaguarda, cuida e transforma a vida de quem mais precisa”, aponta o Texto-base.
No método “Agir” são indicadas ações concretas permeadas com a disposição em servir. Conforme o Texto-base da CF, “o sentido da vida, nós o encontramos no amor que, entre outros aspectos, se traduz na capacidade de se compadecer e cuidar. Por essa razão, um dos primeiros passos do nosso agir não poderia ser outro senão este: como discípulos missionários daquele que é Vida, resgatar o sentido do viver no horizonte da fé cristã proclamando a beleza da vida”.
“A CF nos leva a cada ano em torno da Palavra de Deus. A partir da parábola do Bom Samaritano, a Igreja nos convida a mudar o nosso olhar, a olhar essa realidade que nos cerca para, a exemplo de Irmã Dulce, desenvolver em nós este papel de bom samaritano que cuida e que protege a vida. Em uma realidade como a nossa, marcada pela indiferença, uma falta de sensibilidade com aquele que sofre, nós também somos chamados a ser tocados para poder ir ao encontro daquele que sofre e com amor poder sanar a sua necessidade”, disse o frei Mário Erky.
Subsídios
Além do Texto-base, outros materiais foram produzidos para dar apoio nesta missão: círculos bíblicos, que trazem aprofundamento da Palavra de Deus; sugestão de celebração ecumênica, para reunir pastores e representantes de outras Igrejas na preparação desse evento; a Cartilha Fraternidade Viva, rodas de conversa com a perspectiva de aprofundar-se no tema e a Vigília Eucarística e Celebração da Misericórdia.
Pensando nos jovens, a Comissão para a Juventude da CNBB preparou um material que é direcionado a juventude das diversas realidades eclesiais, para que sejam contagiados pela Luz de Cristo. Aos educadores, por ter um papel fundamental na sociedade, fazendo com que os educandos sejam sempre esclarecidos sobre a sua realidade e as possibilidades de melhor desenvolver a sociedade, foi preparado subsídios para o Ensino Fundamental I e II, Ensino Médio e Ensino Superior.
Campanha da Fraternidade
Realizada pela primeira vez em 1961, pela Cáritas Brasileira, a Campanha da Fraternidade foi crescendo ano a ano sempre com os objetivos que visam “despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho; e renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na nova evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária (todos devem evangelizar e todos devem sustentar a ação evangelizadora e libertadora da Igreja)”.
A Campanha da Fraternidade é lançada sempre na Quarta-feira de Cinzas – dia em que tem início a Quaresma – e as atividades como, por exemplo, formações, palestras, encontros e mobilizações acontecem ao longo de todo o ano.
Text: Sara Gomes
Fotos: Emilly Lima
















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