A presença dos que partiram

Dom Murilo S. R. Krieger, scj Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil   Por causa do dia de Finados, neste mês de novembro temos um apelo

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Dom Murilo S. R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Por causa do dia de Finados, neste mês de novembro temos um apelo e uma motivação maior para fazer uma avaliação de nossa vida. Uma das características principais do ser humano é justamente essa: ser capaz de refletir sobre si mesmo e sobre tudo aquilo que o rodeia. Se aceitarmos o desafio de “olhar para trás”, surgirão, diante de nós, lembranças, de acontecimentos e, principalmente, de rostos e nomes. Iremos recordar nossos pais e irmãos, amigos de infância e colegas de escola, companheiros de trabalho e pessoas que talvez tenhamos encontrado poucas vezes no correr dos anos, mas que, mesmo assim, deixaram em nós marcas profundas. É possível que nem todas essas pessoas continuem presentes em nossa vida. Falo da presença física, palpável, que nos permite olhá-las, dar-lhes um sorriso e manifestar-lhes a nossa amizade. Talvez um parente ou amigo tenha viajado para longe e, com isso, perdemos o contato com ele. Ou então, por causa de estudos ou emprego, nós é que nos mudamos para cidades ou países distantes, perdendo o contato com inesquecíveis amigos. Pode também ter acontecido que a realidade da morte se tenha imposto, obrigando-nos a nos convencer de que não haverá mais o reencontro desejado com tais pessoas. Então, uma luz irá surgindo, uma verdade irá impor-se: as pessoas que amamos e perdemos já não estão onde estavam, mas onde estamos.

Tais pessoas encontram-se presentes não somente em nossas lembranças, mas também nas ideias que defendiam e que assimilamos; presentes em nossas horas de alegria, de trabalho ou naquelas em que enfrentamos desafios. Como essas lembranças nos fazem bem! Como é agradável sentir que não estamos sozinhos e que o passado deixou marcas positivas em nós!

Não há estátuas dessas pessoas que foram importantes para nós e que muito nos influenciaram; elas não ganharam ruas com o seu nome; ninguém se preocupou em escrever sua biografia. Para nós, isso nem é necessário, pois tais honrarias não mudariam o conceito que temos delas – poderiam, até, nos decepcionar, pois jamais conseguiriam exprimir a importância que elas tiveram e têm para nós. Parece até que, à medida que o tempo passa, mais e melhor percebemos seu valor.

Para quem tem fé, a recordação do passado se enriquece com a certeza de que, em Deus, tudo adquire um sentido novo, um valor e uma dimensão que o tempo não destrói. A certeza da eternidade – quando, se tivermos sido fieis ao Evangelho, estaremos junto da Santíssima Trindade e ao lado das pessoas que foram importantes para nós –, essa certeza, longe de ser uma fuga, se impõe como uma resposta adequada para a fome de infinito que há em nós. Sentimos que seria absurda uma vida que se resumisse no aqui e agora. Como aceitar que, um dia, com nossa morte, fossem morrer também nossos sonhos? Que a insatisfação que nos acompanhou ao longo da vida não terá resposta? Foi à luz dessas perguntas que Santo Agostinho observou, numa prece dirigida a Deus: “Criaste-nos para ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”.

Se as pessoas que amamos e perdemos não estão onde estavam, mas onde estamos, como não agradecer ao Senhor por tê-las colocado em nossa vida? Certamente, não aceitaríamos trocar tais presenças e suas recordações por nada deste mundo. Ou, dito isso com palavras que se tornaram clássicas: “Se procuro entre minhas lembranças as que deixaram um gosto durável, se faço um balanço das horas que valeram a pena, certamente só encontro aquelas que nenhuma fortuna no mundo ter-me-ia presenteado” (Exupéry).

Se é verdade que em nossa vida sempre falta alguém, não menos verdade é que nela há presenças tão ricas, fortes e positivas que nos levam a olhar o mundo e nossos contemporâneos com esperança e otimismo.

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