A saudação do Arcanjo Gabriel a Maria é um convite para que Ela se abra a uma alegria nova que Deus desejava oferecer não somente a Ela, mas, a partir dela, a toda a humanidade. Deus vê as coisas de um jeito bem diferente do nosso: ao olhar uma pessoa, ao escolhê-la, Ele vê toda a humanidade. Ao escolher Abraão, por exemplo, Deus fez dele o portador da bênção para todas as famílias da terra (cf. Gn 12, 3). Assim, Deus quer que a alegria se espalhe, pois na verdade, não há ninguém que não busque ser feliz. O filósofo Aristóteles, no século IV a.C., afirmava isso e dizia que o problema é precisamente saber em que consiste essa felicidade. A vocação tem a ver com a vida feliz, trata-se de alcançar o verdadeiro sentido da nossa existência. Quando você se pergunta sobre a vocação, no fundo quer saber sobre como Deus quer que você seja feliz aqui nesta terra e, depois, na eternidade.
É na linha da felicidade que Jesus fala da vocação de Maria, sua Mãe. Quando um dia alguém do povo exclamou diante de Jesus: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”, imediatamente o Senhor respondeu: “Antes são felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (cf. Lc 11, 27-28). Com essa afirmação Jesus direcionava aquele elogio feito à sua Mãe para o verdadeiro motivo de sua felicidade. Maria é feliz porque ouviu a voz de Deus e a acolheu como disponibilidade para o serviço. Santo Agostinho chega mesmo a dizer que Maria foi “mais feliz por ser discípula de Cristo do que por ter sido sua Mãe. Maria era feliz porque antes de dar à luz o Filho, trouxe no ventre o Mestre” (Sermão 72). Assim, a alegria de Maria tem a ver com a sua abertura à Palavra de Deus que se tornou concreta na disponibilidade para o projeto de Deus na sua vida. Deus a queria como sua Mãe e dessa forma ela prestou o maior serviço que alguém pôde nos oferecer, colaborou para a salvação da humanidade inteira, tornando-se Mãe do Salvador.
Jesus indica dessa forma o seu desejo de que também nós experimentemos uma alegria que ninguém pode nos tirar, a alegria da escolha de Deus e de colocar a vida à disposição dele e dos demais. Se a vida é feita de escolhas, antes, porém, nós fomos escolhidos. Como aconteceu com Maria, Deus nos amou e através de nós deseja amar cada pessoa que encontramos no nosso caminho.
A vocação fala do amor com Deus nos amou e do modo como Deus quer que nós nos coloquemos diante dos outros. Com Maria aprendemos que experimentar Deus na nossa vida nos lança imediatamente ao encontro dos irmãos para oferecer-lhes o que de mais precioso nos é dado, o próprio Jesus, sua presença e sua mensagem. Após acolher a Palavra, Maria imediatamente se coloca a caminho para servir: sua prima Isabel, o Filho de Deus ao longo de toda a sua vida, mas também ao casal da bodas de Caná e ao discípulo amado que lhe foi entregue por Jesus do alto da cruz e hoje o seu serviço materno é garantido na Igreja.
Que a escuta atenta da Palavra de Deus nos ajude a discernir os caminhos de Deus para a nossa vida e nos dê a certeza de que a vida feliz só se alcança na doação concreta aos irmãos. Peçamos a Maria que nos ensine sua disponibilidade total como servos do Senhor.
Dom Gilson Andrade da Silva
Bispo auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia


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