Lágrimas na inundação

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

A proximidade do Natal deveria ser tempo de alegria e de paz, motivados pelo nascimento de Jesus. Infelizmente, inúmeras pessoas e famílias têm sofrido com as enchentes que têm causado destruição e mortes no sul da Bahia e norte de Minas Gerais. As águas nos interpelam e obrigam a pensar as condições de vida das nossas cidades e, de modo especial, as precárias condições em que vivem tantas pessoas. É preciso ainda ter presente as consequências da destruição do meio ambiente, tendo como principais vítimas os mais pobres e fragilizados. Embora as enchentes tragam sofrimento para o conjunto de uma comunidade, as famílias mais pobres são mais duramente atingidas. O triste cenário da pandemia tem se agravado muito com as enchentes.

As águas que descem das nuvens enchem os rios, amenizam o calor, saciam a sede, levam fertilidade para a terra, trazem esperança e alegria para o roçado. As águas das chuvas querem falar da beleza da vida, querem ser berço da vida, fonte de alegria e esperança na cidade e no campo, fazendo germinar e florir. Entretanto, essas mesmas águas transformam-se em “lágrimas na inundação”, conforme a famosa canção Planeta Água: “gotas de água da chuva, tão tristes, são lágrimas na inundação”.

As águas dos rios que cantam e encantam nos questionam e interrogam, na inundação, revelando a face triste da pobreza que se assenta às suas margens, especialmente em áreas de risco. São águas que clamam pela preservação da natureza, denunciando a devastação ambiental que destrói a nossa casa comum. São águas que gritam através das enchentes à espera de respostas traduzidas em políticas públicas de prevenção, em gestos de compaixão e solidariedade, tornando o mundo mais humano e a sociedade justa e fraterna, segundo o querer de Deus.

Ás águas das enchentes nos impelem a refletir e a agir, de modo a prevenir a sua ocorrência e a diminuir o seu impacto social por meio de políticas públicas que contemplem a justiça social, a ocupação urbana e a preservação ambiental, bem como através de iniciativas da sociedade civil. Diante dos sofrimentos causados por catástrofes naturais ou injustiças sociais, é preciso traduzir a comoção em ação solidária. É tempo de um grande mutirão de solidariedade em favor das vítimas das enchentes. A tarefa de reconstruir exige continuada atenção e solidariedade, além do socorro imediato às vítimas.

Dentre os gestos de solidariedade em curso, empreendidos por diversas instituições, está a Campanha SOS Bahia e Minas Gerais: Solidariedade que Transborda, coordenada pela Cáritas, com o apoio das Dioceses dos estados atingidos. Na proximidade do Natal de Jesus, a solidariedade deve transbordar mais do que as águas, transformando lágrimas em alegria e esperança.

*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 19 de novembro de 2021.

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