Mãe de todas as dioceses e arquidioceses brasileiras, Sé Primacial celebrou 470 anos de criação

Emoção e gratidão. Estes foram os sentimentos que marcaram a Missa Solene pelos 470 anos de criação da Diocese de São Salvador da Bahia no início da noite de hoje (6), Solenidade da Transfiguração do Senhor. A Celebração Eucarística, ápice dos festejos que foram precedidos por um tríduo, foi presidida pelo Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Cardeal Dom Sergio da Rocha, na Catedral Basílica de Salvador, localizada no Terreiro de Jesus, às 17h.

Padres, diáconos, seminaristas, religiosos e leigos participaram, presencialmente, embora o acesso ao templo estivesse com limite no número de fiéis, devido a pandemia; e para atingir mais pessoas, o Setor de Comunicação da Arquidiocese de Salvador e a Rede Excelsior de Comunicação realizaram transmissões, em tempo real. “Irmãos e irmãs em Cristo, nos alegramos e bendizemos a Deus, que aqui nos reúne para celebrarmos os 470 anos de criação da nossa querida diocese, inicialmente; atualmente, Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Que Deus possa acolher essa nossa grande ação de graças”, disse o Cardeal no início da Missa.

Durante a homilia, Dom Sergio falou sobre a importância religiosa e histórica da Primaz do Brasil, recordando, ainda, os bispos e arcebispos que o precederam no pastoreio. “Rezemos para que o Senhor da Igreja e Pastor do rebanho recompense a eles e a todos os que têm se dedicado para construir a história da Sé Primacial com tanta dedicação e generosidade. Rezemos, acima de tudo, para que o Senhor continue a derramar as suas bênçãos sobre a nossa Arquidiocese, conduzindo-a à santidade”, afirmou.

Ao povo de Deus

Por ocasião da Celebração, o Cardeal Dom Sergio da Rocha enviou uma mensagem aos fiéis:

Em nome do clero, o reitor da Basílica Santuário Senhor Bom Jesus do Bonfim, padre Edson Menezes da Silva, preparou uma homenagem, destacando informações importantes na caminhada, que pode ser lida abaixo:

Há 470 anos, no dia 25 de fevereiro de 1551, através da Bula Super especula militantes Ecclesiae, o Papa Júlio III elevou ao nível de sede episcopal a Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, com área desmembrada da Arquidiocese do Funchal, na Ilha da Madeira, e concedeu à igreja Matriz de São Salvador o título de Igreja Catedral do Santíssimo Salvador. Antes da criação da diocese, vários capelães exerceram o cuidado pastoral das vilas fundadas na Bahia, sendo o Pe. Manuel Lourenço, nomeado por Dom João III, primeiro pároco da Vila de Salvador.

A referida Diocese foi elevada à dignidade de Arquidiocese, com a distinção de Primaz do Brasil pelo Papa Inocêncio XI, em 16 de novembro de 1676, tendo sido criadas, no mesmo dia, as dioceses de Olinda e São Sebastião do Rio de Janeiro como sufragâneas. No decorrer dos tempos, cedeu partes de seu território para a criação de outras dioceses, no Brasil, no estado da Bahia, em 1913, as três primeiras dioceses de Ilhéus, Barra e Caetité, sendo as últimas, a Diocese de Camaçari e a de Cruz das Almas, esta criada em 22 de novembro de 2017.

Até o dia 13 de janeiro de 1844, os arcebispos de São Salvador da Bahia exerceram a sua jurisdição metropolítica também sobre as dioceses africanas de São Tomé, Angola e Congo (hoje Arquidiocese de Luanda).

Com a chegada do primeiro bispo, Dom Pedro Fernandes, em 1552, foi formado e instituído o colendo Cabido da Sé, primeiro do Brasil, cuja função principal era dar maior solenidade ao culto na Catedral, cantar diariamente o ofício divino, que funcionava como um conselho episcopal, e seus membros eram considerados como uma pequena corte eclesiástica. Ele governou pastoralmente a diocese de São Salvador por apenas quatro anos, sendo nomeado o segundo bispo, Dom Pedro Leitão, após três anos de vacância.

A Igreja, que chega trazendo a cruz de Cristo e a finca no solo brasileiro, com a celebração eucarística, inaugura a sua presença na terra de Santa Cruz, anunciando a mensagem da Boa Nova e da salvação; institui a fé católica nas terras brasileiras, com sua característica de natureza humana e origem divina, vai acompanhando e fazendo parte da história de um povo; ganha fisionomia canônica de Igreja Particular, característica de porção do povo de Deus para que, organizada, confiada a um bispo, contando com a cooperação dos presbíteros, dos (das) religiosos (as), do laicato, cumpra a sua missão de Evangelizar, santificar e salvar os homens.

Desta história, participaram padres do clero secular, a exemplo de Mons. José Basílio Pereira e tantos outros que enobreceram o nosso clero. Ele viveu no século XIX e foi grande abolicionista. Realizou um trabalho de relevância, publicando devocionários, vários livretos de formação catequéticas traduzidos do francês. Foi o 1º tradutor do Novo Testamento do francês para o português, editado e publicado aqui na Bahia. Tornou-se membro correspondente de uma comissão Bíblica Francesa, falecendo no ano de 1930.

Muitos religiosos e religiosas fecundaram a nossa história eclesial com o belo testemunho de obediência, de pobreza e de castidade, a exemplo de Ir. Beatriz Maria, do Convento da Soledade; Madre Vitória da Encarnação, do Convento do Desterro; a bem-aventurada Ir. Lindalva, que sofreu martírio, e outras. O Missionário Jesuíta, Pe. Gabriel Malagrida, foi considerado herege e queimado vivo, em Lisboa, no período da inquisição, devido a um processo com motivações políticas, preparado e levado a cabo pelo Marquês de Pombal.

Não podemos esquecer dos missionários Pe. Antônio Vieira, escritor, filósofo e orador, que deixou o legado de seus discursos e orações, e do Pe. José de Anchieta, hoje São José de Anchieta, considerado apóstolo do Brasil. Destacamos as ordens e congregações femininas e masculinas, a exemplo dos franciscanos, jesuítas, carmelitas, beneditinos, capuchinhos, agostinianos, os padres do oratório e muitos outros conventos masculinos e femininos que, devido ao grande número de casas no século XVII, chegou a causar excesso e reclamação do povo, devido aos inúmeros pedidos de doações.

É importante ressaltar a participação das irmandades, confrarias, ordens terceiras, devoções, os recentes movimentos pastorais e serviços eclesiais e ao conceituado advogado, nesta cidade, no século XIX, Frederico Marinho, respeitado por Rui Barbosa que costumava dizer: “a causa que ele pegar, eu não pego”, que criou o movimento de adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento e está sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Penha, na Ribeira.

E assim, aqui na Bahia, nasceu a Igreja Mãe do Brasil com um rosto próprio, porém com matizes de origem portuguesa, com traços de um catolicismo popular espontâneo e pacífico, mesclado com a influência da cultura indígena, africana, inclusive oriental, com uma prática religiosa voltada para a devoção aos santos e, principalmente, à Nossa Senhora, da recitação do rosário; de uma liturgia popular (fora das rubricas), da valorização das festas dos padroeiros ou protetores pessoais, de comemorações devocionais domésticas, como até hoje constatamos e precisamos valorizar, considerando como piedade ou religiosidade popular. Esta é uma das marcas mais particulares da nossa arquidiocese e que merece uma atenção pastoral especial, uma vez que, assim afirma o Catecismo da Igreja Católica: “Há necessidade de um discernimento pastoral para sustentar e apoiar a religiosidade popular e, se for o caso, para purificar e ratificar o sentido religioso que embasa essas devoções, para fazê-las progredir no conhecimento de Jesus Cristo […]. A religiosidade do povo, em seus núcleos, é um acervo de valores que responde com sabedoria cristã às grandes incógnitas da existência” (nº 1676).

Temos um passado marcado por ricas tradições, participamos da história e da vida do povo brasileiro, particularmente do povo baiano; temos registros indeléveis de ações caritativas e obras de misericórdia realizadas em favor dos mais necessitados, conforme a realidade de cada época; realizamos muitos acontecimentos históricos, muitas produções literárias, muitas atividades pastorais e evangelizadoras que marcaram a vida desta Igreja Particular, da nossa Cidade do Salvador, da Bahia e do Brasil. Dentre tantos, citarei alguns sem o intuito de fazer um relato estatístico, cronológico, detalhado:

Em 1707, o arcebispo Dom Sebastião Monteiro da Vide convocou o primeiro sínodo da igreja na Bahia, cujas Constituições Primeiras deste Arcebispado representam um dos documentos religiosos mais importantes do período colonial brasileiro e deu início à construção do Palácio Arquiepiscopal de Salvador.

No dia 30 de maio de 1848, sob os auspícios de Dom Romualdo Antônio de Seixas, foi impressa e publicada a primeira edição do Noticiador Católico, periódico consagrado aos interessados da religião. Em 1908, foi lançada a 1ª Revista Eclesial da Bahia e, em 1947, o lançamento do 1º Jornal Católico.

Em 1933 aconteceu, aqui na Arquidiocese, o primeiro Congresso Eucarístico Nacional, com o tema: Vinde, adoremos o Santíssimo Sacramento; em 1949, o 1º Congresso Nacional de Vocações Sacerdotais; em 1926 o 1º Congresso arquidiocesano vocacional e, em 1945, 2º Sínodo Arquidiocesano. Como esquecer a comemoração do tricentenário da Arquidiocese e o último Congresso Eucarístico Regional comemorativo do quinquagésimo aniversário do primeiro Congresso Eucarístico Nacional, celebrado nesta Cidade do Salvador, durante o Ano Santo de mil novecentos e trinta e três, cujo hino até hoje cantamos em nossas paróquias. Evento que lotou o então estádio da Fonte Nova, durante uma semana e que movimentou toda cidade do Salvador, atingindo, além de toda arquidiocese, as dioceses do Regional Nordeste III da CNBB, todas as classes da sociedade do seu território, e que fora idealizado pelo Cardeal Dom Avelar Brandão Vilela, de saudosa memória e inesquecível pastor. Esta Igreja particular vem gerando e oferecendo para a messe do Senhor presbíteros de grande envergadura intelectual, pastoral, teológica, filosófica, canônica e outros que enobreceram o nosso clero nativo no passado. Hoje temos exemplos de grandes pastores, professores, confessores, escritores, oradores sacros, canonistas, liturgistas, biblistas, dentre eles, destacamos:

1. Mons. Ápio Silva, que foi professor de português; Mons. Trabuco, latinista docente do nosso seminário e por várias gerações; 2. Os monsenhores que foram curiais, párocos e eloquentes pregadores nos últimos tempos: Francisco Sales Brasil, Aníbal Mata, Francisco Silvino dos Reis, Amílca Marques de Oliveira, Fernando de Almeida Carneiro, Osmar Valeriano, José Gilberto de Luna, Hamilton Barros, Gaspar Sadoc da Natividade, Walter Jorge Pinto de Andrade e tantos outros que continuam pelo testemunho de vida e zelo pastoral, dignificando o nosso presbitério baiano. Vale citar ainda, o Cônego Rubens Mesquitas, que deu atenção especial aos portadores de hanseníase.

A nossa Arquidiocese acolheu e continua contando com a colaboração de muitos missionários vindos de outras terras e de padres fidei donum que deixaram exemplos de abnegação, de dedicação pastoral e de testemunho de vida, a exemplo dos Padres José Firens, Pedro Mathon, Renzo Rossi, Paulo Tonucci, Maurício Abel; de alguns religiosos, como Frei Hidelbrando, com a criação de emissoras e cinemas católicos (fundador da Rádio Excelsior), círculos operários; Frei Calisto, que realizou levantamentos estatísticos; de muitos leigos e leigas a quem somos gratos e que atuaram na sociedade levando a presença da Igreja e trazendo para a Igreja a realidade do mundo, como Prof.ª. Dalva Matos, que se dedicou à prática da caridade cristã e à solidariedade para com os excluídos, pobres e marginalizados, criando a Obra de Auxilio Fraterno, até hoje existente; Prof. Thales de Azevedo, pela publicação de seus escritos, testemunho de vida, ensinamentos e discursos comprometidos com a doutrina católica, a justiça social, os direitos humanos, a defesa da vida, a ética e moral cristãs.

Temos oferecido à igreja do Brasil, bispos de notoriedade nacional, a exemplo de Dom Antônio de Macedo Costa, que foi bispo de Belém durante três décadas, tendo sido designado para a nossa arquidiocese, vindo a falecer antes de tomar posse. Ele foi um dos principais protagonistas do cenário político-nacional do Rio de Janeiro, onde se estabeleceram as novas regras de entendimento entre o governo e a hierarquia da Igreja. Outros tantos, sendo o último desta constelação, Dom Josafá Menezes da Silva, meu irmão.

A nossa Arquidiocese deu ao mundo a primeira santa nascida no Brasil e na Bahia: Santa Dulce dos Pobres, que deixou o legado de uma obra social que é referência na nossa cidade e espelho de seus milagres cotidianos. Somos gratos a todos os leigos (as), a todos (as) os (as) religiosos (as), a todos os irmãos sacerdotes do clero regular e do clero secular que doam suas vidas pastoreando esta porção povo de Deus; a todos os bispos titulares e bispos auxiliares, arcebispos metropolitanos e cardeais, nossos pastores que por aqui passaram, recordando com gratidão os três últimos: Dom Lucas Moreira Neves, Dom Geraldo Majella Agnelo, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger.

Continuaremos a nossa caminhada marcada por altos e baixos, como é natural à nossa humanidade, mas o bem que temos feito, os bons exemplos, o zelo e a excelência do cuidado pastoral dos nossos irmãos sacerdotes nos enchem de orgulho, por pertencerem ao presbitério desta Igreja Particular; continuaremos a nossa caminhada contando com a paternal compreensão, apoio e solicitude pastoral de Dom Sergio da Rocha, nosso atual arcebispo metropolitano e dos seus bispos auxiliares.

Parabéns, Igreja Arquiepiscopal primaz do Brasil, Igreja Mãe de todas as igrejas particulares deste gigante e imenso país que foi abençoado logo ao nascer e regado com sangue de muitos mártires, a começar pelo sangue do seu primeiro bispo e seus companheiros. És a mais antiga, a mais rica de bens culturais materiais e imateriais, das expressões e tradições religiosas e devoções. És a Igreja Mãe protegida por todos os santos, pelo manto azul de Nossa Senhora da Conceição da Praia, sustentada pelas santas mãos e pelo coração misericordioso de Santa Dulce dos Pobres. És eternamente abraçada pelos braços divinos do Senhor do Bonfim que, estando sempre abertos, guarda, protege e alumia com o sinal da Sua cruz os seus passos, pelos caminhos da história de ontem, de hoje e de sempre, com a certeza de sermos sempre vitoriosos e conscientes de que tudo devemos fazer para a glória de Deus, o bem da Igreja e a salvação dos homens.

Fotos: Sara Gomes