Os itaparicanos celebraram, com muita alegria, a histórica reabertura da Matriz da Paróquia Santíssimo Sacramento, localizada no centro da Ilha de Itaparica, restaurada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Fechado desde 2018, o templo foi completamente recuperado, desde o mobiliário até a estrutura dos telhados, em um investimento de R$ 9,3 milhões.
O ato de reabertura teve início às 10h, mas desde as primeiras horas da manhã, dezenas de pessoas aguardavam ansiosamente pelo momento que poderiam voltar a entrar no templo. Entre os fiéis estava Rosângela Santos, coordenadora da Pastoral do Dízimo, na paróquia. “É a realização de um grande sonho nosso, que essa Igreja fosse reformada, fosse restaurada, porque é a Igreja que representa o Titular da nossa cidade, que é o Santíssimo Sacramento. Então, é com muita honra que hoje nós concretizamos este sonho de receber de volta, nas mãos da Paróquia Santíssimo Sacramento, este valioso símbolo de fé e de esperança em um mundo melhor”, afirmou.

Para dar início à solenidade, quem estava na praça em frente ao templo acompanhou uma manifestação cultural do grupo “Os guaranis – os caboclos de Itaparica”. Em seguida, o Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Cardeal Dom Sergio da Rocha; o prefeito de Itaparica, José Elias Oliveira; a presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Larissa Peixoto; o secretário especial da Cultura, Mário Frias; o Ministro da Cidadania, João Roma; o ministro do Turismo, Gilson Machado Neto desamarraram uma fita na porta do templo, simbolizando a entrega. Em seguida, a porta principal foi aberta e todos puderam contemplar a beleza do templo que é datado de 1794.
De acordo com o Cardeal Dom Sergio, o momento de entrega deste templo é marcado pelos sentimentos de gratidão e de esperança. “Nós temos a alegria das obras de restauração desta Igreja, que tem uma importância histórica muito especial, mas, acima de tudo, por ser esse patrimônio artístico e cultural de singular beleza. É claro que é um dom que nós recebemos, um presente, mas também uma tarefa: a responsabilidade de cuidar com muito zelo desse patrimônio que é zelado, em primeiro lugar, pela Igreja, mas que conta, também, com o povo querido aqui da Ilha e tantas pessoas que admiram a beleza arquitetônica, a beleza artística desta Igreja. Nós esperamos, contando com a graça de Deus e o apoio das autoridades, continuar a cuidar, cada vez melhor, desta Igreja dedicada ao Santíssimo Sacramento’, afirmou.
Segundo a arquiteta residente, Sarah Majdalani, para devolver o douramento ao templo foram utilizados cerca de 1.200 cadernos, cada um com 25 folhas de ouro. Além disso, a recuperação do templo contou com novas instalações elétricas, bem como com implantação do Sistema de Proteção de Descargas Atmosféricas (SPDA). “O maior desafio encontrado foi o nível de degradação que essa Igreja estava, assim como o tempo que nós tínhamos que viabilizar, tanto a parte civil quanto a parte de restauro. A obra civil tem um ritmo mais rápido que a obra de restauro, e o forro, em determinada parte, estava com várias camadas de tinta, e algumas partes foram decapadas no bisturi, manualmente, até chegar à camada primitiva”, explicou. Segundo ela, no telhado foi colocada uma manta de fibra de vidro, moldada no próprio local, o que impede infiltrações e garante uma melhor preservação do teto.
Encantado com a beleza, estava o historiador Felipe Santos Peixoto Brito, que destacou a importância histórica do templo. “A Matriz do Santíssimo Sacramento foi construída pelos itaparicanos, junto com o padre Torres, ao longo de mais de 35 anos. Ela foi inaugurada em 21 de outubro de 1794 e passou ao culto dos fiéis, substituindo a Igreja de São Lourenço, ou seja, ela passou a ser a principal Igreja da Ilha de Itaparica. Foi elevada à Matriz em 1814, passando a ser sede de uma nova freguesia e abrigando não só a Irmandade do Santíssimo Sacramento, mas também outras, como a do Rosário dos Pretos e a do Bom Jesus dos Necessitados”, disse.
Segundo ele, alguns dos fatos mais importantes ocorreram na Igreja Matriz de Itaparica entre os anos de 1822 e 1823. “O fato mais importante que aconteceu nesta Igreja e a tornou conhecida nacionalmente foi a participação singular deste tempo nas guerras da Independência do Brasil, na Bahia. Entre 1822 e 1823 a Bahia viveu vários momentos complicados de guerra, de conflitos políticos e militares, e nessa Igreja se celebrou o aniversário de Dom Pedro em 12 de outubro de 1822. Enquanto na Bahia se celebrava o aniversário do príncipe, no Rio de Janeiro ele estava sendo coroado Imperador do Brasil. Mais tarde, em 1823, nesta Igreja se celebrou um Te Deum Laudamos, que foi em homenagem às bandeiras brasileiras que foram abençoadas neste templo para serem hasteadas no Forte de São Lourenço. Foram as primeiras bandeiras brasileiras que foram benzidas na Bahia e hasteadas em um forte militar”, contou.

De fato, a história da Matriz Santíssimo Sacramento se confunde não apenas com a história de Itaparica, mas faz parte da história do Brasil. Em 1826, a Matriz do Santíssimo Sacramento recebeu a visita de Dom Pedro I, e em 1859, do seu filho sucessor, Dom Pedro II. Em 1830, após 14 anos de criação da Irmandade do Santíssimo Sacramento, o compromisso foi reformado pelo então Arcebispo Romualdo Antônio de Seixas que aprovou a Irmandade.
“O valor da paróquia para a comunidade de Itaparica, além de religioso é, também, cultural. Nesta Igreja houve a presença de Dom Pedro I, de Dom Pedro II, além do Te Deum celebrado em ação de graças pela vitória do povo de Itaparica nas lutas pela Independência do Brasil, na Bahia. Então, o valor tem a cultura, o sinal de resistência na história, mas também o valor religioso, pelo fato da Igreja ser uma das poucas com esta estrutura arquitetônica na própria Ilha de Itaparica e na região do Recôncavo Baiano”, afirmou o pároco, padre Rosalvo Marcelino Humildes Júnior.
Para o vice-coordenador da Comissão de Bens Culturais da Arquidiocese de Salvador, Irmão Jorge Mendes, a restauração deste templo é uma vitória. “Esta Igreja é um legado que nos foi deixado por nossos antepassados e que agora nos é entregue toda restaurada. É uma beleza tão grande de Deus que também se revela pela arte sacra. Para nós, é uma grande alegria saber que estamos trilhando o caminho certo, pedindo que outras Igrejas sejam restauradas e também criando a cultura preventiva de manutenção. Nós vamos propor um curso de formação para que as pessoas possam saber como limpar a prataria, como limpar as pedras douradas e outra coisa, de modo a não danificar. Com isso, nós vamos observar se há algo que esteja danificando o patrimônio, para que possamos corrigir e não chegar à necessidade de restauro”, afirmou.
Primeira Missa

Para louvar e agradecer a Deus, o Cardeal Dom Sergio presidiu a primeira Missa na Matriz da Paróquia Santíssimo Sacramento, após a reabertura, às 16h. Durante a homilia, o Arcebispo agradeceu aos que estiveram presentes na solenidade de reaertura do templo, bom como a todos os que colaboraram para que a restauração fosse possível. “Nós temos a graça de receber um dom precioso. Na verdade, a comunidade já contava com a graça deste templo há tanto tempo acolhendo a comunidade paroquial. Mas, agora, restaurada, a sua beleza ganha um destaque ainda maior, sendo motivo não só para visita, para admiração, para contemplação desta beleza, mas sendo ocasião privilegiada de encontro com o Senhor. A Igreja é Casa de Oração. A Igreja é a Casa de Deus. Esta Igreja Matriz tem a graça de ter como Titular o Santíssimo Sacramento, que está aqui à nossa espera”, afirmou.
Antes da bênção final, o padre Rosalvo Humildes apresentou à comunidade os fiéis que serão chamados de Guardiões. A iniciativa propõe que 38 paroquianos, homens e mulheres de fé, possam ser os primeiros a cuidar do templo, zelando por cada espaço físico, mas também contribuindo no processo de evangelização da comunidade paroquial.
Um pouco de história
Construída no final do século XVIII, à base de cal, pedra e óleo de baleia, a Igreja possuía um estilo barroco, apesar de, nas linhas atuais, estarem traços do neoclássico, além de possuir painéis ornados pelo pintor José Teófilo de Jesus, que reproduziu a ceia e os milagres do Santíssimo. Padre Manoel Cerqueira Torres foi o responsável pelas obras do templo, que foi inaugurado no dia 21 de outubro de 1794. Quase 21 anos após a abertura, em 1814, Dom João VI, ainda na condição de Príncipe Regente de Portugal, deu ao templo o nome de Santíssimo Sacramento de Itaparica, desmembrando-o da Matriz Nosso Senhor da Vera Cruz.
Importantes momentos da história do Brasil foram protagonizados nesta Igreja, a exemplo da aclamação à Majestade Imperial, Dom Pedro I, que os itaparicanos fizeram em outubro de 1822, com uma celebração do Te Deum (A Ti, Deus!), em agradecimento pela Independência do Brasil que fora conquistada. Em 1826, a Matriz do Santíssimo Sacramento recebeu a visita de Dom Pedro I, e em 1859, do seu filho sucessor, Dom Pedro II. Em 1830, após 14 anos de criação da Irmandade do Santíssimo Sacramento, o compromisso foi reformado pelo então Arcebispo Romualdo Antônio de Seixas que aprovou a Irmandade. Atualmente, a Matriz é composta por duas capelas e 13 comunidades.
Texto e fotos: Sara Gomes
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