Mês da Bíblia: fique por dentro – parte IV

Pascom – Como é possível atualizar a linguagem bíblica para os dias de hoje?

Padre Carlos André – A teologia latino-americana popularizou uma expressão que afirma ser necessário para todo bom cristão ter a Bíblia numa mão e o jornal na outra. Na época o jornal impresso era mais lido do que é atualmente, mas continua valendo a lógica de que a única atualização possível é aquela que é sintonizada com os dramas do mundo de hoje. Não é uma questão de gramática e de vocabulário, nem de enciclopédia cultural sobre o mundo bíblico que vai tornar a linguagem da Bíblia mais compreensível.

Toda literatura, antiga ou moderna, tem os seus códigos próprios, por isso é natural que o primeiro contato com a linguagem bíblica seja difícil, obscuro. Mas uma vez dentro da floresta, passamos a reconhecer os atalhos, os caminhos surgem diante dos olhos. Não tenho receio de afirmar isso porque as questões propostas pela bíblia não ficaram ultrapassadas, Quando deixaremos de nos inquietar pela vida, pela justiça, pela fraternidade, pela liberdade? A morte, o mal, o ódio, o sofrimento também estão contados, dramatizados e até cantados em lamentos do tipo, “Deus onde estás?”. Talvez o aspecto que o homem moderno mais resista ao tomar a Bíblia para ler é o seu tempo.

A Bíblia não é algodão doce que derrete na boca e deixa o estômago vazio. Ela exige tempo, pede do leitor respeito pela sua densidade bi-milenar e convida a demorar-se em cada palavra ou frase, em cada detalhe de uma história, em cada trama que liga um texto a outro dentro do seu tecido. A linguagem bíblica, como toda linguagem, só pode ser decifrada quando se respeita a sua natureza, o contexto próprio de suas expressões. Um exemplo: se eu digo  “Meu rei” na Bahia, ninguém terá dúvida de que não se trata de um rei verdade; mas se eu, baiano, estiver em oração ou cantando numa igreja disser “meu Rei” certamente estarei reverenciando um rei de verdade. Um contexto torna coerente, significativo e atual qualquer texto.