Um olhar a partir das luzes da Declaração Mater Populi Fidelis: primeira discípula, Mãe dos fiéis

Por Cônego Adilton Pinto Lopes

Mariólogo, Biólogo, Pároco e Reitor da Basílica Santuário

Nossa Senhora da Conceição da Praia, Padroeira da Bahia.

Professor Doutor de Teologia Dogmática na Ucsal

 

Há poucos dias, a Igreja nos deu uma nova Declaração provinda do Dicastério da Fé, aprovada pelo Papa Leão XIV, intitulada Mater Populi Fidelis, “sobre alguns títulos marianos referidos à cooperação de Maria na obra da Salvação”.

A referida Declaração não traz uma grande novidade, mas quer aprofundar o que foi dito na Lumen Gentium ao afirmar a unicidade da única mediação de Cristo, de que Jesus é o Redentor e que, na economia da salvação, não há espaço para outros redentores, já que a redenção se dá porque Aquele que morreu na Cruz é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Jesus morre para redimir todo o gênero humano; também Maria de Nazaré foi redimida pelo único e suficiente Redentor — inclusive a Virgem de Nazaré foi redimida desde o útero santo.

A Declaração prefere usar o termo já conhecido de “cooperadora na obra da redenção”, “discípula fiel”, “Mãe”. A Declaração tem a preocupação de que os fiéis católicos saibam promover e fazer crescer as verdades primárias da fé e o lugar primordial que ocupa Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Na Virgem Maria, tudo nela se refere a Ele; toda Mariologia tem seu fundamento na Cristologia e todas as honras relativas à Virgem Maria derivam desta relação intrínseca com Jesus e com a Trindade.

Afirma a Lumen Gentium:

“Efetivamente, a Virgem Maria, que na Anunciação do Anjo recebeu o Verbo no coração e no seio e deu ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus Redentor. Remida de um modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu Filho, e unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a dignidade de Mãe de Deus Filho” (LG 53).

Em sua sabedoria e missão de ser Mãe e Mestra, a Igreja, mais uma vez, reforça a centralidade de Jesus como Redentor absoluto e único Salvador do gênero humano e, de modo tangencial, apresenta a Virgem Maria como aquela que coopera, de modo sublime, para a salvação de todos os homens e mulheres. A Igreja, Mãe e Mestra, quer nos educar também ao nível da piedade popular. Os fiéis devem se deixar formar, educar e orientar pela Mãe Igreja. Os leigos e leigas, os presbíteros, não detêm o carisma do Magistério, próprio dos bispos em comunhão com o Santo Padre. São os pastores, sucessores dos apóstolos, que têm a missão de conduzir o povo de Deus à verdadeira fé e ajudar no processo de purificação da piedade e religiosidade popular.

Nos dias hodiernos, a Igreja tem percebido que o uso de certos títulos para com a Bem-Aventurada Virgem Maria pode, em vez de trazer clareza, semear confusões ou imprecisões dogmáticas. Faz-se urgente e necessário que a totalidade do Povo de Deus se deixe guiar pelos pastores na condução de uma melhor compreensão da verdadeira fé, também no campo da Mariologia, sempre em relação com uma clara Cristologia e Soteriologia.

Outra constatação que faço é que, no decorrer dos séculos, a Igreja, pedagoga da fé, sempre fez referência à Virgem de Nazaré. A Igreja não se entenderia sem Maria. Como afirmou São Paulo VI na Marialis Cultus, n. 28:

“Deste modo, o amor pela Igreja traduzir-se-á em amor para com Maria, e vice-versa, pois uma não pode subsistir sem a outra, como perspicazmente observava São Cromácio de Aquileia: ‘Reuniu-se a Igreja na parte superior (do cenáculo), com Maria que foi a Mãe de Jesus e com os irmãos d’Ele. Não se pode, portanto, falar de Igreja senão quando estiver aí Maria, Mãe do Senhor, com os irmãos d’Ele’.”

No documento de Aparecida se afirma: “Como a Virgem Maria, a Igreja é mãe. Esta visão mariana da Igreja é o melhor remédio para uma Igreja meramente funcional ou burocrática” (DAp 268).

A doutrina presente na Declaração quer ser uma continuidade das realidades que foram aprofundadas no capítulo VIII da Lumen Gentium, onde se buscou afirmar a primazia fundamental da cristologia para se entender uma madura mariologia.

Nos números 60-61 do Documento conciliar, fala-se de um só Mediador e que a mediação materna de Maria, sua solicitude maternal, não obscurece a única mediação de Cristo.

O próprio fato de a Virgem Maria ser imaculada, desde o momento de sua concepção no útero materno de Ana, é uma ação da redenção máxima de Cristo sobre uma criatura. Ela foi redimida por Cristo de modo mais sublime e absoluto. A Imaculada Conceição é a expressão máxima da redenção de Cristo em uma criatura humana.

Nós, seres humanos, fomos justificados depois de termos sido manchados pelo pecado original; já na Virgem Maria, a redenção se dá preservando-a de toda mancha, pelos méritos de Cristo. A Virgem Maria, desde o primeiro instante de sua existência, é Panaghia — Toda Santa. Ela foi redimida por Cristo, o único redentor do ser humano, de um modo mais sublime. Desde seu primeiro instante de existência neste mundo — ainda como um zigoto, como um feto — a alma e o corpo da Virgem, no útero de Santa Ana, foram plenamente redimidos.

Se a Virgem Maria não fosse redimida, ela não seria Imaculada. Todos os seres humanos são redimidos, salvos por Cristo; também a Virgem Maria foi redimida por Ele. Os seres humanos foram remidos do pecado pela justificação; a Virgem Maria foi redimida pela preservação. Ela foi preservada de ser manchada pela contaminação do pecado original.

Jesus de Nazaré é o Redentor universal; não existe nenhum ser humano que não tenha sido redimido por Ele. A redenção e a mediação, ao nível de justiça, têm seu centro intocável e irremovível em Jesus Cristo. Só Ele e somente Ele é nosso mediador junto ao Pai, como bem escreve São Paulo a Timóteo: “Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2, 5).

A redenção, a mediação única de Cristo da humanidade ao Pai, é exclusiva, e não se fazem necessários outros redentores, porque só em Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, o ser humano foi redimido e readmitido à glória divina. Somente pela vida entregue do Deus-homem Jesus e pelo seu sangue derramado todo ser humano foi redimido.

A Virgem Maria não redime ninguém, nem pode se auto redimir. O Salvador exclusivo da humanidade foi o Verbo feito carne, Jesus, único e exclusivo redentor do homem, conforme a justiça. O redentor da Virgem Maria foi também Jesus. A Virgem Maria foi redimida de modo mais sublime, como preservação do drama do pecado original.

O que a Igreja sempre ensinou e busca clarificar, como o fez São João Paulo II na Redemptoris Mater, foi falar que existe em Maria, por pura condescendência do Pai, uma mediação materna, destacando seu papel de intercessora e Mãe da Igreja, que vela pelos seus filhos, sempre dependente e subordinada a Cristo, o único Mediador. A Virgem Maria se coloca no meio entre o Filho e a humanidade para interceder, usando seu direito enquanto Mãe; que, assunta e glorificada, continua sendo presença. Como em Caná da Galileia, ela continua recordando ao seu Divino Filho: “Eles não têm vinho”.

Profundas e sempre atuais são as palavras esclarecedoras sobre a única mediação de Jesus Cristo, único Redentor, e a maternidade espiritual da Virgem Maria na Redemptoris Mater, no número 38:

A Igreja sabe e ensina, com São Paulo, que um só é o nosso mediador: ‘Não há senão um só Deus e um só é também o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se entregou a si mesmo como resgate por todos’ (1 Tim 2, 5-6). ‘A função maternal de Maria para com os homens de modo nenhum obscurece ou diminui esta única mediação de Cristo; mas até manifesta qual a sua eficácia’ é uma mediação em Cristo.

A Igreja sabe e ensina que ‘todo o influxo salutar da Santíssima Virgem em favor dos homens se deve ao beneplácito divino e … dimana da superabundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação, dela depende absolutamente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo que não impede o contacto imediato dos fiéis com Cristo, antes o facilita’. Este influxo salutar é apoiado pelo Espírito Santo, que, assim como estendeu a sua sombra sobre a Virgem Maria, dando na sua pessoa início à maternidade divina, assim também continuamente sustenta a sua solicitude para com os irmãos do seu Filho.

Efetivamente, a mediação de Maria está intimamente ligada à sua maternidade e possui um carácter especificamente maternal, que a distingue da mediação das outras criaturas que, de diferentes modos e sempre subordinados, participam na única mediação de Cristo; também a mediação de Maria permanece subordinada. Se, na realidade, ‘nenhuma criatura pode jamais colocar-se no mesmo plano que o Verbo Encarnado e Redentor’, também é verdade que «a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas uma cooperação multiforme, participada duma única fonte»; e assim, ‘a bondade de Deus, única, difunde-se realmente, de diferentes modos, nas criaturas’.

O ensino do Concílio Vaticano II apresenta a verdade da mediação de Maria como “participação nesta única fonte, que é a mediação do próprio Cristo”. Com efeito, lemos: “A Igreja não hesita em reconhecer abertamente essa função assim subordinada; sente-a continuamente e recomenda-a ao amor dos fiéis, para que, apoiados nesta ajuda materna, eles estejam mais intimamente unidos ao Mediador e Salvador”. Tal função é, ao mesmo tempo, especial e extraordinária. Ela promana da sua maternidade divina e pode ser compreendida e vivida na fé somente se nos basearmos na plena verdade desta maternidade. Sendo Maria, em virtude da eleição divina, a Mãe do Filho consubstancial ao Pai e “cooperadora generosa” na obra da Redenção, ela tornou-se para nós “mãe na ordem da graça”. Esta função constitui uma dimensão real da sua presença no mistério salvífico de Cristo e da Igreja.

O documento do Dicastério da Fé quer deixar clara esta verdade, já presente tanto na Lumen Gentium quanto na Redemptoris Mater; verdade esta anunciada há mais de 2.000 anos pela Igreja: que o único Redentor dos seres humanos, único Salvador, é Jesus Cristo. Da Santíssima Trindade promana toda graça. A Virgem Maria, no céu, em corpo e alma, torna-se cooperadora eficaz da graça de Deus e intercede a Cristo para que cada ser humano O encontre; para que cada ser humano experimente a graça, que em Jesus morto e ressuscitado tem a sua fonte e eficácia. “Sem mim, nada podeis fazer.”

No episódio das Bodas de Caná, Maria de Nazaré diz aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” Toda Mariologia conduz a uma verdadeira Cristologia e Soteriologia. Um verdadeiro amor filial à Virgem Maria, uma verdadeira devoção à Virgem Maria, nos conduz a Jesus, faz a Igreja redescobrir Jesus e o seu Evangelho.

Afirma o n. 61 da Lumen Gentium: “Ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por tal motivo, ela se tornou para nós mãe na ordem da graça.”

Exatamente isso: a Virgem Maria ajuda a restaurar em nossa alma a vida sobrenatural, ajuda a fazer crescer em nossas almas a graça. Por isso, mãe espiritual na ordem da graça. Maria não é fonte da graça. A origem e fonte de toda graça é o Deus Uno e Trino: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Virgem Maria foi aquela que experimentou de modo pleno a graça de Deus. Ela foi agraciada e, porque foi agraciada, Deus quis que ela pudesse, por sua intercessão materna, fazer chegar a graça — que é Cristo — a cada ser humano.

Afirmou o Papa Pio XII na Ad Caeli Reginam, de 11.10.1954: “Para melhor compreendermos a sublime dignidade que a Mãe de Deus atingiu acima de todas as criaturas, podemos considerar que a santíssima Virgem, desde o primeiro instante da sua conceição, foi enriquecida de tal abundância de graças que supera a de todos os santos.”

A Lumen Gentium, n. 53, afirma:

 

Em vista dos méritos de seu Filho foi redimida de um modo mais sublime e unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel. É dotada com à missão sublime e dignidade de ser Mãe do Filho de Deus e por isso filha predileta do Pai e sacrário do Espírito Santo. Por este dom de graça exímia supera de multo todas as outras criaturas celestes e terrestres. Mas ao mesmo tempo está unida, na estirpe de Adão, com todos os homens a serem salvos.

 

Esta graça exímia que a Virgem de Nazaré recebeu do próprio Deus, que é a fonte infinita de toda graça, pode ser constatada na Perícope da Anunciação presente em Lucas. Vejamos:

“O Anjo entrou onde ela estava e disse: ‘Alegra-te, cheia de graça (Kekaritomene), agraciada, favorecida de Deus! O Senhor está contigo… Não temas, Maria; encontraste graça junto a Deus’.” (Lc 1, 28-30).

Só por Deus ela se tornou plena de graça. É Deus quem a faz agraciada, e não ela mesma. Não foram os méritos da Virgem de Nazaré que a fizeram ser cheia de graça. Esta graça lhe é concedida pela Trindade. “Encontraste graça junto a Deus.” A Virgem de Nazaré, por seus méritos ou por seu querer, não pode salvar, nem a si mesma nem aos outros; ela não pode ser corredentora, assim como não se faz repleta da graça por si mesma. Nem ela mesma jamais se chamou de corredentora. Toda graça tem sua fonte na Trindade; é um dom sobrenatural.

Todavia, tendo-se tornado agraciada, repleta da graça que vem do Espírito Santo, ela coopera na formação de cristãos e cristãs, para que também eles se tornem cheios da graça de Deus e, com isso, se tornem santos e santas. Ela ajuda a restaurar em cada ser humano a graça sobrenatural em suas almas.

O Papa Francisco usou a expressão, em relação a Maria, “é a mais abençoada dos santos entre os santos”. Escreveu o Papa Francisco na profunda e atual Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, n. 176:

“Desejo coroar estas reflexões com a figura de Maria, porque ela viveu como ninguém as bem-aventuranças de Jesus. É aquela que estremecia de júbilo na presença de Deus, aquela que conservava tudo no seu coração e se deixou atravessar pela espada. É a mais abençoada dos santos entre os santos, aquela que nos mostra o caminho da santidade e nos acompanha. E, quando caímos, não aceita deixar-nos por terra e, às vezes, leva-nos nos seus braços sem nos julgar. Conversar com ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos. A Mãe não necessita de muitas palavras, não precisa que nos esforcemos demasiado para lhe explicar o que se passa conosco. É suficiente sussurrar uma vez e outra: ‘Ave Maria…’”

Noutra ocasião, o Papa Francisco, no Angelus, se pronunciou:

“esta imensa família de fiéis discípulos de Cristo tem uma Mãe, a Virgem Maria. Nós a veneramos com o título de Rainha de todos os Santos, mas é acima de tudo a Mãe, que ensina cada um a acolher e seguir seu Filho. Que ela nos ajude a alimentar o desejo de santidade, percorrendo o caminho das Bem-aventuranças”. Angelus 1.11.2020

À Virgem Maria, que é Mãe de Jesus Cristo, na cruz se tornou Mãe da Ecclesia (Igreja), do povo fiel, pela fé e na fé. Ela é discípula que nos aponta para Jesus e intercede por nós a Cristo, como fez em Caná da Galileia. Sua intercessão materna perdura da Anunciação até o último eleito, até a Parusia, afirma a Lumen Gentium.

São João Paulo II, na Redemptoris Mater, fala com propriedade de uma mediação materna, como Mãe que vela e se preocupa com todos os seus filhos e filhas. Puebla abre ainda mais dizendo que o coração da Virgem Maria é maior do que o mundo. Ela, como Mãe, se preocupa com o destino final de seus filhos e também quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, cf. 1Tm 2,4. A Verdade é Cristo, único Redentor dos homens, fonte de toda graça. A criatura humana que mais experimentou esta graça, preservando-a de toda e qualquer desordem provocada pelo pecado original, foi Maria. Por pura graça, ela foi redimida. Mas não redime.

Nenhuma outra criatura possui intimidade com a Trindade como Maria. Meu grande professor e relator da tese de meu doutorado em Mariologia, Pe. Stefano de Fiores, monfortino (da Congregação de São Luís Maria Grignion de Montfort), um dos maiores mariólogos da Igreja, dizia que existe uma sinergia singular entre a Virgem Maria e a Trindade. Ela, e somente ela, como declarou a Lumen Gentium, é a Filha predileta do Pai, a Mãe do Verbo encarnado, Templo e Sacrário do Espírito Santo; os orientais a chamam de Pneumatófora e Pneumatiforme.

A Virgem Maria coopera de modo intrínseco e por pura condescendência do Pai; a Virgem Maria coopera com amor de Mãe para que os seres humanos abram o coração para Jesus Cristo. Ela coopera com a sua intercessão materna para que cada ser humano abra o coração para Cristo e se deixe alcançar por sua graça salvadora, redentora e reconciliadora.

Na Lumen Gentium, n. 61, se diz: “Todavia, a materna missão de Maria a favor dos homens de modo algum obscurece nem diminui esta mediação única de Cristo, mas até ostenta a sua potência… Ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por tal motivo, ela se tornou para nós mãe na ordem da graça.”

A exortação Mater Populis Fidelis (Mãe do Povo Fiel), de modo claro e objetivo, assim declarou nos números 21-22, recordando o ensinamento do Papa Francisco:

O Papa Francisco expressou, ao menos por três vezes, sua posição claramente contrária ao uso do título de Corredentora, alegando que Maria “jamais quis reter para si algo do seu Filho. Nunca se apresentou como corredentora. Não: discípula!”. A obra da redenção foi perfeita e não necessita de acréscimo algum. Por isso, “Nossa Senhora não quis tirar nenhum título de Jesus […]. Ela não pediu para ser uma quase-redentora ou corredentora: não. O Redentor é um só e este título não se duplica”. Cristo “é o único Redentor: não existem corredentores com Cristo”. Porque “o sacrifício da Cruz, oferecido com coração amante e obediente, apresenta uma satisfação superabundante e infinita”. Se bem que nós possamos prolongar no mundo os seus efeitos (cf. Cl 1,24), nem a Igreja nem Maria podem substituir ou aperfeiçoar a obra redentora do Filho de Deus encarnado, que foi perfeita e não necessita de acréscimos.

Levando em consideração a necessidade de explicar o papel subordinado de Maria a Cristo na obra da Redenção, é sempre inoportuno o uso do título de Corredentora para definir a cooperação de Maria. Este título corre o risco de obscurecer a única mediação salvífica de Cristo e, portanto, pode gerar confusão e desequilíbrio na harmonia das verdades da fé cristã, pois “não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome, dado aos homens, que nos possa salvar” (At 4,12). Quando uma expressão requer muitas e constantes explicações para evitar que se desvie de um significado correto, não presta um bom serviço à fé do Povo de Deus e torna-se inconveniente. Neste caso, não ajuda a exaltar Maria como primeira e máxima colaboradora na obra da Redenção e da graça, porque o perigo de obscurecer o lugar exclusivo de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem por nossa salvação, único capaz de oferecer ao Pai um sacrifício de valor infinito, não seria uma verdadeira honra à Mãe. Com efeito, ela, como “serva do Senhor” (Lc 1,38), orienta-nos para Cristo e pede-nos para fazer “o que Ele vos disser” (Jo 2,5).

A Virgem Maria, Mãe de Deus, Mãe da Igreja, Mãe dos fiéis, ao mesmo tempo é membro supereminente da Igreja, ícone perfeito da beleza de Deus e prelúdio, por graça, do que nós seremos: imaculados. E todos os seres humanos que forem salvos, por pura misericórdia, esperamos que também nós, quando Jesus Cristo vier na sua glória, na Parusia, teremos — assim como Jesus e, por graça, a Virgem Maria já possui no mistério da sua Assunção — um corpo e alma plenamente glorificados. A meta da humanidade redimida em Cristo é o céu, com seres humanos de corpos glorificados. E na Parusia, a Virgem Maria, porta dos céus, discípula e Mãe fiel, irá nos abraçar e nos conduzir a Jesus Cristo, vivo, ressuscitado e glorificado.

A Virgem Maria, glorificada no céu em corpo e alma, nos espera. Ela se faz presente nas lutas e labutas diárias da Igreja e dos cristãos. Ela se preocupa com o destino de toda a humanidade; em inúmeras Mariofanias (Aparições) constatamos esta realidade da sua presença e da sua aproximação. A Igreja nunca está sozinha, sem a sua presença e materna intercessão. Ela nos chama à conversão, à penitência e à oração. Ela caminha conosco, como mãe conduzindo seus filhos à meta final. Ela intercede para que ninguém se perca e para que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, que é Jesus Cristo, único Redentor. A Virgem Maria aponta cada ser humano para Jesus, único Redentor do mundo. A Virgem ficará muito feliz quando chegarmos, com sua ajuda, ao céu.

Ao concluir o capítulo VIII da Lumen Gentium, n. 69, mais uma vez se recorda que a Virgem Maria, discípula fiel e Mãe, colabora com todos os seres humanos para que possam, um dia, redimidos por Cristo, adentrar na glória eterna. No fim do capítulo VIII se faz uma oração, uma súplica, para que não só os cristãos atinjam a plenitude da felicidade eterna, mas também como doce esperança para que os povos que ainda ignoram Jesus, o Salvador, possam se reunir junto a Deus para o banquete celestial. Afirma o Concílio:

“Dirijam todos os fiéis instantes súplicas à Mãe de Deus e mãe dos homens, para que Ela, que assistiu com suas orações aos começos da Igreja, também agora, exaltada sobre todos os anjos e bem-aventurados, interceda, junto de seu Filho, na comunhão de todos os santos, até que todos os povos, tanto os que ostentam o nome cristão, como os que ainda ignoram o Salvador, se reúnam felizmente, em paz e harmonia, no único Povo de Deus, para glória da santíssima e indivisa Trindade”. (LG, 69).

Nossa Senhora, Mãe do Povo Fiel, rogai por nós.

Ajudai-nos, Virgem Maria, a sermos fiéis em tudo o que fizermos e a vivermos a vocação batismal com alegria, com esperança e com ardor apostólico.

Totus Tuus.